Philippe Machado Domingues antestreia novo documentário em Monção
O novo documentário de Philippe Machado Domingues, “Nunca haverá imagens suficientes” (Il n’y aura jamais assez d’images), tem a sua antestreia esta quinta-feira em Monção, concelho natal da família do realizador.
Coproduzido pelo jornal BOM DIA, o filme propõe uma reflexão íntima sobre a morte, a memória e a emigração, recorrendo a arquivos familiares e a uma narrativa que busca transformar ausência em reencontro.
A génese do projeto é tão simples quanto potente: “A razão vem dos filmes de casamentos dos meus familiares que tive à disposição e onde me apercebi que eram os únicos arquivos audiovisuais dos meus avós”, conta Philippe Machado Domingues.
Esses registos, somados ao facto de não ter assistido aos funerais da maioria deles, abriram-lhe uma janela sobre um luto inacabado; um “luto fantasma” que o realizador quis encarar através do cinema. “A minha intenção primeira era criar uma ponte sobre a falta de imagens e a questão da memória. Criar um novo adeus. Um adeus que seja sucedido”, explica.
O filme nasce, assim, de uma dupla necessidade pessoal e artística. O realizador luso-francês confessa ter vivido várias perdas numa fase adolescente marcada por “repressão e supressão emocional”, experiências que só mais tarde encontrou espaço para tratar, tendo o cinema sido o meio escolhido.
“O cinema dá a oportunidade de voltar a criar uma bolha de tempo, de poder construir, corrigir, ou interferir na realidade. O cinema deu-me a possibilidade de dizer adeus”, afirma. A ligação afetiva e simbólica entre França e Portugal, o percurso de ida e volta que marcou a vida do realizador, constitui o fio condutor que atravessa o documentário: a estrada torna-se imagem e metáfora de uma travessia pessoal e coletiva.
O documentário integra o mais vasto projeto “Sem Fronteiras”, produzido pelo BOM DIA e resulta de uma colaboração que aliou jornalismo, investigação e cinema. Philippe Machado Domigues reúne parte da equipa técnica do seu primeiro filme de ficção, “Até para o ano”: Arsène Desmichelle na imagem e Guillaume Ladiray no som voltam a acompanhar o realizador nesta viagem íntima.
A origem do projeto remonta a uma iniciativa acadêmica: Carlos Barros, doutorando na Universidade de Lisboa, contactou o BOM DIA em 2019 para divulgar uma sondagem junto das comunidades portuguesas. A cooperação alargou-se e, nesse verão, o jornal produziu uma série de entrevistas com emigrantes de regresso a Portugal nas férias — material e contatos que acabaram por inspirar Machado a aprofundar a proposta e a transformá-la num documentário intimista.
A escolha de Monção para a apresentação não é casual: é ali que se aninham as raízes familiares do realizador, mais propriamente na freguesia de Cambeses. A antestreia no concelho minhoto é um gesto simbólico que fecha um círculo entre origem, memória e exílio.
“Nunca haverá imagens suficientes” promete ser uma obra onde o silêncio das ausências é preenchido por imagens resgatadas, reconstruídas e questionadas. Ao confrontar a escassez de registos audiovisuais com a necessidade de fazer luto, o filme interroga não só a experiência pessoal de Philippe Machado Domingues, mas também uma condição comum a tantas famílias portuguesas marcadas pela emigração: o desencontro entre quem parte e quem permanece, entre o que se fotografa e o que se deixa sem rasto.
O filme será projetado esta quinta-feira, 20 de agosto, às 21:30 no Cineteatro João Verde. Bilhetes aqui.
“Nunca haverá imagens suficientes” é uma média-metragem documental franco-luso-luxemburguesa com realização e argumento de Philippe Machado Domingues, fotografia e música de Arsène Desmichelle, montagem de Manuel Pinto, som de Guillaume Ladiray, correção de cor de Candice Pérez, mistura de som de Juste Bruyat. A produção é do BOM DIA, da Play It Again, com o apoio do Cine-Teatro João Verde. Os coprodutores são a Dotimages (fonds de dotation), o Cineclube Português e os produtores são Hugues Desmichelle, Philippe Machado Domingues, Raúl Reis, Ricardo Silva e Ricardo Campos.