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Crianças-soldado no norte de Moçambique

As Nações Unidas assinalaram no passado dia 12 de fevereiro o Dia Internacional contra o uso de crianças-soldado. Por mais infame e cruel que esta prática seja, ela existe e destrói o futuro de milhares de jovens, levados por grupos armados indiferentes ao seu destino e às inúmeras convenções e tratados internacionais que as protegem.

Nos últimos tempos tem havido notícias cada vez mais frequentes de que também na província de Cabo Delgado há crianças e jovens que estão a ser utilizados como crianças-soldados, forçados a integrar os grupos terroristas para não serem mortos. Os assassinatos indiscriminados têm sido notícia recorrente, mas em meados de março a organização humanitária Save the Children denunciou com veemência a decapitação de crianças na casa dos 11 anos. Estas práticas de terror também têm como finalidade diminuir a resistência dos jovens a serem recrutados.

Com base no testemunho de um grupo de mulheres que fugiu das bases dos insurgentes depois de terem sido raptadas, a organização não governamental moçambicana Observatório do Mundo Rural revelou recentemente que jovens estão a ser submetidos a discursos de ódio, de revolta e vingança e a ser treinados para matar. De resto, têm sido identificados nos ataques às povoações adolescentes entre os insurgentes.

Esta prática não é nova em Moçambique, tal como não é entre os grupos terroristas. Durante o período de guerra civil houve crianças-soldados que foram recrutadas, o que de alguma forma é facilitado pelo facto de cerca de metade da população moçambicana ser muito jovem, e também bastante exposta à pobreza e, por isso, vulnerável, segundo dados da UNICEF.

O ativista Albino Forquilha, responsável da ONG Força Moçambicana para a Investigação de Crimes e Reinserção Social, uma organização que trabalha na reinserção social de crianças-soldados, foi ele próprio recrutado quando tinha apenas 12 anos e refere que, para muitos jovens, o recrutamento significa uma importante forma de autoafirmação.

O padre da diocese de Pemba, Latifo Fonseca, alerta para a necessidade de essas crianças serem resgatadas e afirma que devem ser muitas as que foram transformadas em soldados, porque “há muitas mães a chorar pelo seu desaparecimento”. Muitos desses jovens foram raptados e obrigados a participar em treino militar para os ataques. Existem também relatos que falam no rapto de raparigas, usadas para casamentos forçados ou para serem vendidas no tráfico internacional de seres humanos, enviadas para vários países para prostituição.

Países como Sudão do Sul, Nigéria, Colômbia, Myanmar, Síria, Iémen e muitos outros tiveram ou têm crianças-soldados.

E a UNICEF não tem poupado esforços para denunciar estas situações e pressionar para a sua libertação, além de orientar programas específicos para serem reintegrados na vida em sociedade, tarefa difícil pelo trauma muitas vezes permanente que causa a participação em cenários de guerra. Estima-se que haverá, atualmente, em várias partes do mundo, cerca de 250 mil jovens utilizados como crianças-soldados.

Uma notícia da agência Vaticano News, a propósito do Dia Internacional contra o Uso de Crianças-Soldados, faz uma descrição impressionante que constitui ao mesmo tempo um poderoso alerta para a comunidade internacional: “Carregam espingardas e Kalashnikovs, usam facas e facões e são recrutadas por forças ou grupos armados. E são muito pequenas, até mesmo com 6 anos de idade, as crianças-soldados são usadas em conflitos como combatentes, mensageiros ou, no caso de meninas, como escravas sexuais”.

Paulo Pisco, deputado do PS

 

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