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#poesiaarteemportugues: Herberto Hélder

Aproxima-se o Dia Internacional da Poesia e não queremos deixar de o comemorar consigo.

Ao longo das próximas semanas venha connosco num roteiro pela poesia portuguesa e por alguns dos seus maiores poetas.

Deixemo-nos encantar por este nosso património inconfundível.

Com o hashtag #poesiaarteemportugues vamos partilhar poemas escolhidos pelos nossos colaboradores. Tague também os seus poemas preferidos.

POEMA II

“Bicicleta” de Herberto Hélder

Selecionado por Patrícia Barata

Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais —
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.

O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e desaparece uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.

De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa agora pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.

Puta de vida subdesenvolvida.
O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.

Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
o poeta dá à pata como os outros animais.

Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.
Herberto Hélder, “Poesia Toda” (1973)

Herberto Hélder (1930-2015)
Em Herberto Hélder substituímos quaisquer pormenores da sua vida pessoal pela exigência de lhe falar, caro leitor, da sua obra, tal qual o poeta desejou.
Herberto Hélder recusou prémios e afastou-se sempre da mediatização, pondo em lugar cimeiro o que de maior nos ofertou: poesia única e uma experiência em língua portuguesa absolutamente ímpares. Quando os especialistas escrevem acerca do poeta encontramos apresentações como: “o maior poeta de língua portuguesa desde Fernando Pessoa”, “o mais rebelde dos poetas portugueses”, “mais desconhecido e mais amado poeta português da segunda metade do século XX e início do século XXI”, “poeta de culto”, “o grande mago da poesia portuguesa contemporânea”, por exemplo.
Mestre da palavra exuberante, intensa e incontida, de uma forte construção imagética e de uma qualidade metafórica e simbólica única, deixou-nos uma obra imensa em qualidade e impacto, que, no entanto, parece ainda ignorada por parte do público português. Este é o nosso singelo contributo para que ela se revele.
Algumas das suas obras são: A morte sem mestre (2014), Poemas completos (2014), Servidões (2013), A faca não corta o fogo (2008), Poesia toda (1973); A colher na boca (1961) e O amor em visita (1958).

LEIA AQUI O PRIMEIRO POEMA DESTA SÉRIE