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Carta ao meu amante

Atrasado, sempre. E chegas quando já não espero por ti,
minhas mãos correm nervosas a mesa da cozinha
ou tranquilamente pousadas nos braços do sofá quando
repito para mim mesmo que já te esqueci.

Chegas sempre com a mesma conversa,
as mesmas desculpas, as tuas falas mansas,
a promessa das tuas mãos no meu corpo suspenso
de me acalentares a alma e reacenderes o meu peito,
o mesmo piscar de olhos, o ar dengoso,
nem disfarças, que fácil que eu sou, não é?

Pensas que eu sou o quê, pensas que eu sou quem,
meu estupor, meu filho da mãe,
meu amante irresistível e irrecusável?
Vens vestido de romantismo, transvestido de sexo,
despido do teu manto habitual e por vezes mesmo nu,
à espera que eu caia em tentação, que eu caia em paixão,
e eu caio, caio sempre.

Murmuras-me essas palavras doces ao ouvido
(és um mentiroso!),
o teu bafo morno na minha nuca (cheiras mal!),
falas sempre o que preciso ouvir (pantomineiro!),
já me conheces, dizes que preciso de ti, que não passo sem ti,
(és um embuste, um reles, maldito!)
e eu que sempre juro o contrário
cada vez que vais embora (nunca mais!),
nesse momento nem respiro (larga-me, solta-me, não quero…),
agarras-me pelos ombros e entras em mim com força (vem!),
invades-me e logo te pertenço (sou teu!).

Porque és doce, porque és quente,
porque me fazes existir, porque és fogo e és oxigénio
e explosão em mim quando me penetras,
e sabes mexer comigo e mexer-te dentro de mim,
sabes fazer-me brilhar e gostar de mim mesmo,
como se eu fosse desde sempre parte de ti e tu parte de mim.
Tudo é maravilhoso nesse breve momento
no espaço e no tempo.
A carne é fraca, o espírito irresoluto
e o coração um ratito pequenito
que corre corre numa roda viva,
mesmo se esse caminho nunca o leva a lugar algum.

Fazes-me correr sem destino,
sem tino
e pensas que não
me canso, mas canso,
o meu coração está a ficar…
“É cardio, é cardio, meu querido,
faz bem ao coração!”,
ris-te de mim.
Não, meu cabrão,
o coração extingue-se assim
nessas miragens de salvação…

Vem então a madrugada inevitável
e tu já não estás, como sempre
eu fico lavado em lágrimas
na minha cama vazia
na minha vida sem sentido.
Porque me fizeste acreditar que era para sempre,
como nos contos de fadas, se depois sempre vais embora?
Como pude eu voltar a acreditar novamente?…

E tu encolhes os ombros e respondes
que não podes fazer nada,
és assim, um vadio, um boémio, é a tua natureza,
ir e vir no Homem que sou cada vez menos.

JLC24092017