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Sabia que os nazis também escravizaram portugueses?

Um projeto transnacional pretende criar uma plataforma pública com informações sobre os trabalhadores forçados portugueses e espanhóis na Alemanha nazi, tendo para isso recebido financiamento de um programa europeu, anunciou o Instituto de História Contemporânea.

Em comunicado, o Instituto de História Contemporânea (IHC) da Universidade Nova de Lisboa salienta que o projeto “Portuguese and Spanish Forced Labourers under National Socialism: History, Memory and Citizenship” (“Trabalhadores forçados portugueses e espanhóis sob o nacional-socialismo: História, memória e cidadania”, em tradução livre), coordenado por Cláudia Ninhos, foi o único trabalho português contemplado pelo programa “Europa para os Cidadãos – Memória Europeia”.

Tendo a Universidade Autónoma de Barcelona, a Universidade de Paris 8 e o Observatório Europeu sobre Memórias como parceiros, o projeto procura alargar o âmbito de um trabalho desenvolvido desde 2015 por uma equipa liderada pelo historiador Fernando Rosas, que partiu do estudo dos portugueses no campo de concentração de Mauthausen, na Áustria, e que se foi estendendo aos principais campos nazis.

“A nossa ideia era ir estendendo isto progressivamente por forma a perfazer a lista dos portugueses que passaram pelos principais campos de concentração”, afirmou à Lusa Fernando Rosas, salientando a importância desse estudo não só para as famílias, mas também para o conhecimento histórico em Portugal.

Cláudia Ninhos sublinha que “esta segunda fase, no fundo, é um alargamento desse projeto inicial”, realçando a parceria com o lado espanhol.

“Juntamos esforços com o objetivo de criar uma base de dados que congregue informações sobre portugueses e espanhóis. Há uma parte da informação que já está feita, mas este financiamento vai permitir-nos voltar aos arquivos portugueses, espanhóis, mas sobretudo aos alemães e franceses”, afirmou a coordenadora do projeto, que aponta o final do primeiro semestre de 2022 como data para a colocação ‘online’ da plataforma.

A lista já identificada de portugueses que foram forçados a trabalhar na Alemanha nazi será “a ponta de um icebergue muito maior”, reiterou Cláudia Ninhos, visto que muitos documentos estão ainda por revelar e outros terão sido destruídos no contexto da Segunda Guerra Mundial.

Entre essa lista, que incluirá cerca de um milhar de pessoas, estão indivíduos com “percursos muito distintos” e “uma história de vida muito específica”.

“De forma geral, são emigrantes portugueses que se estabeleceram em França ao longo das décadas de 1920 e 1930. Há também outro grupo, muito interessante, que são os portugueses que participaram na Guerra Civil de Espanha e depois acompanharam a vaga de refugiados que se criou para França. São destes dois grupos que saem os trabalhadores forçados que depois vão parar a empresas alemãs, também a campos de concentração”, explicou Cláudia Ninhos, que frisou tratar-se de um “assunto muito complexo, porque há várias categorias de trabalhadores forçados”.

Pelo meio, há ainda portugueses voluntários e cujo regresso ao local de origem, “com o evoluir da guerra”, se tornou impossível.

Fernando Rosas, que enalteceu o apoio do Ministério dos Negócios Estrangeiros ao projeto, lamenta que a pandemia de covid-19 tenha levado a uma suspensão dos trabalhos de investigação e espera que, no último trimestre do ano, já seja possível o retomar dos trabalhos, com as viagens previstas aos arquivos estrangeiros.

O projeto vai também incluir “ações de formação para professores em Portugal e em Espanha, bem como a produção de material pedagógico”, com a colaboração da Associação de Professores de História e dos parceiros alemães dos Arolsen Archives – International Center on Nazi Persecution.

Adicionalmente, “será ainda organizada uma exposição sobre esta temática, a inaugurar em Paris”.

A equipa do IHC é composta por, para além de Cláudia Ninhos e Fernando Rosas, Ansgar Schaefer e ainda pelo investigador associado e também diretor do Museu Nacional de Arqueologia, António Carvalho.

Em 2017, devido à investigação realizada pelo IHC, sob coordenação de Rosas, foi descerrada uma placa em Mauthausen, de homenagem aos portugueses, de todas as origens e credos, vítimas do regime nazi.