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Longe dos barulhos do mundo

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Longe dos barulhos do mundo 
dá ainda para sentir o meu coração a pulsar?
dá para ausentar-me disto tudo que me rodeia 
e deixar de ouvir o ódio, a guerra, os bombardeamentos
por ecrã interposto mas tão reais 
dá para ignorar o choro das crianças sob as bombas
os gritos das mães com os filhos ao colo
a aflição dos homens forçados a abandonar a família nas fronteiras
e a pegar em armas para matar os seus próprios irmãos 
eles mesmos ali conscritos por obrigação 
eles mesmos ali carne-para-canhão
que vieram sem saberem ao que vieram?

Como posso existir e não partilhar essa dor?
como posso viver o meu dia-a-dia alheado de tudo isso
e a gandular pelas tarefas rotineiro
sem a noção a esmagar-me 
de que não posso fazer nada… ou tão pouco?
como me refugiar desse ruído todo
para me proteger a mim e aos meus?
Como ser humano num tempo tão desumano?

O tempo da despreocupação já lá vai 
era feliz e não o sabía
pior, não cuidava como devía
de mim, dos meus, do meu tempo, 
da minha vida, do meu corpo, da minha alma
era o tempo de antes, o tempo do antigo normal 
o tempo antes do bicho e do papão e do medo constante
antes das crises, da pandemia e da guerra.

Agora vejo como é ainda mais importante e essencial 
falar da majestade de um singelo raio de sol 
de como a sua luz tão intensa e irreal toca 
com os seus dedos mornos e meigos 
a minha pele e o meu rosto e o meu corpo 
e do encantamento que me penetra o resmalhar das árvores
como se me estendessem os braços generosos
e da festa alegre das flores a abrirem e a dançarem 
sob o arco-íris primaveril que substitui a chuva
e contar e cantar como me deixo maravilhar 
ainda hoje, como quando era criança 
por tão simplesmente ouvir o vento a passar 
e só por isso vale a pena sentir-me vivo 
como dizia o poeta, como dizem todos os poetas.

Agora vejo como é ainda mais importante e essencial
mostrar a beleza singular e plural do mundo
em cada pormenor, em cada elemento
em cada zumbido, em cada gorjeio
em cada gargalhada, em cada sorriso
em cada abraço e em cada beijo 
partilhado com os que amo
em cada mão que dou ao próximo
porque os dias felizes podem estar contados 
e, em verdade, nunca saberei propriamente 
o último a que terei direito,
por isso, nunca deixes para amanhã 
o que podes amar hoje ! 

JLC07032022

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Loin des bruits du monde

Loin des bruits du monde 
puis-je encore sentir mon coeur battre ?
est-il possible de m’éloigner de tout ce qui m’entoure ? 
et de ne plus entendre la haine, la guerre, les bombardements
par écran interposé, mais si réels 
est-il possible d’ignorer les pleurs des enfants sous les bombes ?
les cris des mères tenant leurs fils dans les bras
la détresse des hommes contraints d’abandonner leur famille aux frontières 
et de prendre les armes pour tuer leurs propres frères 
eux-mêmes conscrits là par devoir 
eux-mêmes là comme chair à canon 
venus sans savoir à ce qu’ils venaient ?

Comment puis-je exister et ne pas partager cette douleur ?
Comment puis-je vivre ma vie de tous les jours en ignorant tout cela 
et égaré dans les tâches routinières
sans que la notion m’écrase 
que je ne peux rien faire… ou si peu ?
comment puis-je me mettre à l’abri de tout ce bruit
pour me protéger moi et les miens ?
Comment être humain dans un temps aussi inhumain ?

Le temps de l’insouciance est révolu 
j’étais heureux et je ne le savais pas.
pire, je n’y faisait pas attention comme je devais
à moi-même, aux miens, à mon temps, 
à ma vie, à mon corps, à mon âme
c’était le temps d’avant, le temps de l’ancien normal 
le temps avant la petite bête, avant le croquemitaine et la peur constante
avant la crises, la pandémie et la guerre.

Maintenant je vois combien il est encore plus important et essentiel 
de parler de la majesté d’un simple rayon de soleil 
de comment sa lumière si intense et irréelle touche 
avec ses doigts chauds et doux 
ma peau, mon visage et mon corps 
et l’enchantement du bruissement des arbres qui me pénètre 
comme si elles me tendaient leurs bras généreux
et la fête joyeuse des fleurs qui s’ouvrent et dansent 
sous l’arc-en-ciel printanier qui remplace la pluie
et raconter et chanter comment je me laisse émerveiller 
encore aujourd’hui, comme quand j’étais enfant 
d’entendre simplement le vent qui passe 
et que juste pour cela il vaut la peine de me sentir en vie 
comme disait le poète, comme le disent tous les poètes.

Maintenant je vois combien il est encore plus important et essentiel
de montrer la beauté singulière et plurielle du monde
dans chaque détail, dans chaque élément
dans chaque bourdonnement, dans chaque gazouillis
dans chaque rire, dans chaque sourire
dans chaque câlin et dans chaque baiser 
partagés avec ceux que j’aime
dans chaque main que je tends à mon prochain
parce que les jours heureux peuvent être comptés 
et, en vérité, je ne saurais proprement jamais 
le dernier jour auquel j’aurais droit,
alors ne laisse jamais à demain 
ce que tu peux aimer aujourd’hui ! 

JLC07032022

Far from the noise of the world

Far from the noise of the world 
can I still feel my heart beating?
Is it possible to get away from everything that surrounds me
and no longer hear the hatred, the war, the bombings
through a screen, but so real 
is it possible to ignore the cries of children under the bombs?
the screams of mothers holding their sons in their arms
the distress of men forced to abandon their families at the borders 
and to take up arms to kill their own brothers 
themselves conscripted there by duty 
themselves there as cannon fodder 
who came without knowing what they were coming for?

How can I exist and not share this pain?
How can I live my everyday life ignoring all this 
and lost in my routine tasks
without the notion crushing me 
that I can do nothing… or so little?
how can I protect myself from all this noise
to protect myself and my own dear ones?
How can I be human in such an inhuman time?

The time of careless life is over 
I was happy and I didn’t know it
worse, I didn’t pay attention to it as I had to
to myself, to my people, to my time 
to my life, to my body, to my soul
it was the time before, the time of the old normal 
the time before the bug, before the bogeyman and the constant fear
before the crisis, the pandemic and the war.

Now I see how much more important and essential it is 
to talk about the majesty of a simple sunbeam 
of how its light so intense and unreal touches 
with its warm and soft fingers my skin, my face and my body 
and the enchantment of the rustling of the trees that penetrates me 
as if they were extending their generous arms to me
and the joyful celebration of the flowers that open and dance 
under the spring rainbow that replaces the rain
and tell and sing how I let myself be amazed 
even today, as when I was a child 
to simply hear the wind passing by 
and for just that it is worth it to feel alive 
as the poet said, as all poets say.

Now I see how much more important and essential it is
to show the singular and plural beauty of the world
in every detail, in every element
in every hum, in every chirp
in every laugh, in every smile
in every hug and in every kiss 
shared with those I love
in every hand I hold out to my neighbor
because happy days can be counted 
and, in truth, I will never know for sure 
the last day I’ll be entitled to,
so never leave for tomorrow 
what you can love today! 

JLC07032022

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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