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Eleições com muitos recenseados mas poucos votantes?

As eleições estão a chegar e no momento em que escrevo estas linhas a maioria dos portugueses da diáspora já votaram.

Para quem não é “cá de fora”, é necessário explicar que a maioria dos votantes na emigração portuguesa – que agora são todos os maiores de idade que efetuaram um ato consular tal como a renovação de documentos de identidade – passam a estar recenseados automaticamente no país onde residem. A forma de voto por defeito para esses eleitores é através de uma carta que chega a casa pelo correio, contendo um boletim e uma série de envelopes para garantir o segredo do voto.

O porte para Portugal é pago e basta, por isso, colocar o envelope no correio para o dever ficar cumprido.

Muitos portugueses foram surpreendidos nos últimos dias pela carta vinda de Portugal. Nas redes sociais são milhares aqueles que se questionam sobre a razão de receberam o boletim de voto. Há quem publique fotografias de todos os elementos nas redes sociais. Há outros que perguntam no Facebook “que faço eu com isto?”. O comportamento animalesco de muitos de nós manifesta-se por comentários que vão de “não vou votar nesses corruptos” ou versões mais avisadas tais como “vota Zé, que podes fazer a diferença”. Infelizmente, a primeira posição é a mais frequente nas redes sociais…

Mas há pior. Alguns internautas filiados em partidos políticos, ou com responsabilidade nos mesmos, publicaram fotografias de cartas com boletins de voto, afirmando, por exemplo, “enviado por um eleitor, estes vão para o meu partido!”.

Este grau de estupidez e de desonestidade surpreende, mas existe. E é pior ainda do que as declarações de princípio que se leem regularmente sobre a “escumalha que são os partidos e os políticos” e que “votar é perder tempo e para nada serve”.

Esta situação apenas se pode combater pela educação e pela informação, mas – infelizmente – o Estado português fez pouco para avisar os novos eleitores da diáspora. As iniciativas que foram lançadas para esclarecer sobre o recenseamento obrigatório não foram nem suficientes nem eficazes. A prova está na surpresa que os portugueses vão manifestando quando recebem em casa o boletim de voto, pedindo ajuda nas redes sociais como se tratasse de instruções para montar um armário Ikea. A confirmar a falta de informação, a opção do voto presencial nos consulados foi tão pouco divulgada, que em muitas cidades de grande emigração portuguesa não há inscritos para desempenharem o direito de voto nas instalações diplomáticas.

Espero, mas não acredito, que a participação eleitoral aumente substancialmente com o recenseamento obrigatório nestas legislativas. Tenho esperança que os nossos políticos, que – admita-se – se viraram para as comunidades mais do que nunca nos últimos anos, possam também aperceber-se da necessidade de alfabetização eleitoral e política.

E, sobretudo, confio que o próximo parlamento considere a implementação do voto eletrónico, porque se os meus compatriotas da diáspora são capazes de pedir explicações no Facebook aos amigos sobre como votar por correspondência, com ainda maior facilidade saberão utilizar um boletim de voto em linha.

 

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