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Cantinho da Carolina: ‘Notre Dame, Notre Dante…’

“E a catedral não era só companhia para ele, era o universo; Mais ainda, era a própria Natureza; Nunca sonhava que houvesse outras sebes que os vitrais em perpétua flor; Outra sombra que a da folhagem de pedra sempre brotando, carregada de pássaros nos bosques de capitais saxões; Outras montanhas do que as colossais torres da igreja; Ou outros oceanos do que Paris rugindo aos seus pés”

Este texto foi escrito por Victor Hugo, em 1831.

Faz parte de um romance seu, e falava sobre o corcunda de Notre Dame, supostamente um dos escultores da Catedral, em quem se inspirou para criar Quasímodo, personagem que todos conhecemos de filmes ou da animação.

Mas hoje, muitos são aqueles que se sentem como aquele pobre homem, para quem o monumento era um mundo, um universo, na sua arquitectura, na sua história, nos mistérios que já guardou…

A construção da catedral foi iniciada em 1163 na Île de la Cité, ilha onde a cidade de Paris foi fundada em 52 a.C.

Como em muitas outras situações, o local já contava com um sólido historial relativo ao culto religioso. Os celtas teriam aqui celebrado as suas cerimónias e, mais tarde, os romanos hasteariam um templo de devoção ao deus Júpiter. Também neste local existiria uma das primeiras igrejas do cristianismo e de Paris, a Basílica de Saint-Étienne.

A primeira pedra da catedral ‘Nossa Senhora de Paris’, como se costuma traduzir, foi colocada em 1163 durante o reinado de Luís VII, pois Paris medieval crescia em importância e em população, e tornava-se o centro político e económico do reino francês. Era preciso criar obras magníficas!
O processo de construção da catedral de Paris durou quase dois séculos com a intervenção de muitos arquitetos.

Mas, após a Revolução Francesa, Notre Dame ficou arrasada e deixada ao esquecimento. Não restou qualquer vitral nas janelas e várias esculturas foram destruídas. Deve-se a Victor Hugo mais esse reconhecimento, pois foi ele que lançou a campanha para que se restaurasse este património.
A tarefa coube ao arquitecto Viollet-le-Duc que, muito criticado na época pela sua visão romântica da Idade Média, acabou por conseguir recuperar o prestígio e o esplendor da Catedral.

Notre Dame foi agora palco de um cenário Dantesco.

Mas não foi a primeira vez…

Mesmo à sua frente, na Praça Paris, foram executados os últimos Templários franceses, queimados vivos na fogueira. A ordem veio do rei Filipe IV que, com grandes dividas aos Cavaleiros, decidiu persegui-los, acusando-os de heresia, bruxaria, e outros cultos ao demónio. Teve a ajudá-lo o Papa Clemente V.

Setecentos anos depois, estaremos a viver uma retaliação do passado?

Foi também palco de outros acontecimentos menos dramáticos, e até burlescos, como a coroação de Napoleão. Este, que queria demonstrar que o seu poder era superior ao da Igreja, recusou-se a ser coroado pelo Papa, coroando-se a si próprio e a Josephine, Imperadores de França. Consta que Pio VII não contava com isto e acabou por não abençoar a cerimónia.

Conta-se também que, na Idade Média, mesmo no interior da catedral, era celebrado um ritual com jumentos. Todos os dias 26 de dezembro, um homem disfarçava-se de bispo e montava um burro, cavalgando pelo interior do monumento, enquanto centenas de pessoas, mascaradas, cantavam e dançavam ao seu lado.

Foi também palco da Beatificação de Joana d’Arc. Mais um pedido de desculpa do Vaticano, por ter morto esta mulher, corajosa heroína, queimada na fogueira.

Tantas mortes nas chamas, ordenadas pela Igreja, fazem-nos pensar num castigo quase divino…

Até a imagem que vimos arder, a planta em cruz, vista dos céus.

Católicos ou não, dói-nos a alma ver Notre Dame naquela punição.

Relíquias que ali se guardam, manuscritos medievais, pinturas, esculturas… Perdidos para sempre?

O comandante dos bombeiros de Paris assegura que as obras mais preciosas ali guardadas foram retiradas a tempo, e sossegamos um pouco.

Mas não muito. Afinal toda Catedral é uma obra preciosa:

A arquitetura gótica, caracterizada pelos seus longos arcos pontiagudos, para ‘os cristãos se sentirem mais próximos de Deus’ resulta numa nave principal com 33 metros de altura e com capacidade para 9 mil pessoas.

A fachada, os portões.

A grande rosácea localizada na fachada norte, que mede 13 metros de diâmetro e representa 80 imagens do Antigo Testamento, dispostas em torno da imagem central da virgem.

No extremo oposto, outra rosácea com a imagem do Cristo do Apocalipse, que foi acrescentada por Viollet-le-Duc durante a restauração.

Na parte central da catedral, uma enorme torre adornada na ponta por um galo, símbolo do país dos gauleses.

Os enormes arcos do edifício principal terminavam com um impressionante telhado de madeira, uma cobertura peculiar feita com mais de 1.300 madeiras de castanheiros, ou seja, cerca de 24 hectares
de floresta que, certamente, não eram resistentes ao fogo.

As tão peculiares gárgulas…

Representando animais fantásticos ou monstros, são consideradas símbolos da Notre Dame. Mais que uma decoração enigmática, elas foram pensadas como forma de proteger as paredes do escoamento da água das chuvas.

A mais famosa delas, a gárgula ‘Stryge’, fica no topo da catedral, e observa Paris com a cabeça apoiada nas mãos.

Diz-se que a Catedral possuía um sistema de alerta de incêndio, com detectores de fumo conectados a um painel electrónico, e agentes especializados no combate ao fogo.

Então porque nada disto funcionou?

…Tudo soa a mistério ou a ironia do destino.

Até a lenda da ‘Porta do Diabo’…


Quando os clérigos da altura encomendaram o trabalho de ferraria dos portões da catedral a um artista artesão, estavam longe de imaginar a lenda que daí viria. Biscornet foi o escolhido para fazer a fechadura e a decoração em ferro forjado da porta de Santa Ana.

Perante a grande dificuldade da obra, que era colossal e superior às capacidades de qualquer ferreiro ou serralheiro, conta a lenda que este jovem invocou o Diabo, pedindo a sua ajuda em troca da sua alma. Quando finalizou o trabalho, foi muito elogiado e promovido a mestre no ramo. Porém, pouco depois, foi encontrado morto na sua cama em estranhas condições.

Ou desapareceu. Os relatos são contraditórios…

Seja como for, até hoje os especialistas não conseguem explicar como Biscornet conseguiu fazer um trabalho tão primoroso, até porque era considerado um pouco preguiçoso.

Será que estas portas se abriram agora ao inferno de Dante?

Diz a sabedoria popular que mãos ociosas são o instrumento do Diabo. Talvez se baseasse nessa crença esta lenda e, quem sabe, este incêndio também…

E não é a única lenda ligada a Notre Dame.

Em frente desta catedral, na Praça Paris, situa-se o marco zero da cidade.

É como que um ponto de referência para calcular a distância entre Paris e as demais cidades francesas. Se quiser voltar a Paris, diz a lenda que deve pisar no marco zero.

Pensamos em mais uma ironia, pois ao ponto zero parece estar condenada a voltar esta obra, que tanto tem de gigantesca como de… Dantesca.

E se comecei este texto recorrendo a Victor Hugo, é com ele também que termino, pois, como já escrevi, seja-se religioso ou não, observamos Notre Dame a arder e ‘rezamos’ para que aquele inferno termine, que não mate a arte, a cultura, a História de todos nós…

‘Certos pensamentos são como orações, há momentos em que, seja qual for a posição do corpo, a alma está, sempre, de joelhos.’