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Professora luso-americana revela histórias do 25 de Abril nos Estados Unidos

© Daniela Melo

A mobilização política da comunidade portuguesa nos Estados Unidos foi tão forte após o 25 de abril de 1974 que uma delegação luso-americana conseguiu chegar à Sala Oval para um encontro com o então presidente Gerald Ford. 

A professora luso-americana Daniela F. Melo, da Universidade de Boston, considerou “extraordinária” a força da mobilização da comunidade em 1975 e 1976, algo que acabou por cair no esquecimento académico e ficou de fora da obra publicada depois da revolução. 

A sua pesquisa foi apresentada esta quarta-feira na sessão de abertura da 47ª conferência anual da Luso-American Education Foundation (LAEF), que decorre até 30 de setembro. 

“É importante perceber que a capacidade de um grupo da diáspora conseguir entrar na Casa Branca é extraordinária”, afirmou a cientista política. “Não é algo que aconteça sem uma série de peças – capacidade e oportunidade – a juntar-se para mobilizar e puxar as alavancas certas para abrir as portas da Casa Branca”. 

A delegação, que incluiu personalidades importantes da diáspora na altura, Joseph E. Fernandes e Julio V. d’Oliveira, tentava influenciar a administração norte-americana no sentido de ajudar as forças anticomunistas em Portugal e direcionar ajuda monetária diretamente aos Açores.

“Havia um número de indivíduos em Nova Inglaterra que estavam muito bem integrados nas suas comunidades e na política local e estadual e que conseguiram ativar essas redes para abrir as portas da Casa Branca às suas preocupações”, explicou a politóloga. 

A chegada à Sala Oval a 9 de setembro de 1975 ilustra o dinamismo das movimentações políticas da diáspora portuguesa nos Estados Unidos, cujo movimento gerou manifestações com milhares de pessoas em Washington, D.C. e em Nova Iorque, à frente da sede das Nações Unidas. 

“Os luso-americanos nos anos setenta tinham uma extensa rede de jornais, estações de rádio e televisão, tanto em português como inglês”, referiu a professora. Também havia centenas de clubes e sociedades portuguesas bem estabelecidas, que se tornaram espaços “onde os luso-americanos se mobilizaram politicamente durante a revolução”. 

Não só houve uma cobertura muito detalhada da situação em Portugal nos jornais da comunidade, com destaque para o Portuguese Times, como inclusive padres que ajudaram na mobilização. 

“Havia uma preocupação de que a revolução não seria tão democrática quanto os luso-americanos tinham antecipado”, indicou a especialista. O entusiasmo do 25 de abril deu lugar ao receio, com uma manchete no Portuguese Times em agosto de 1974 a dizer “Os cravos da revolução estão a murchar”. 

A equipa editorial deste jornal tentou ativamente influenciar políticos em Nova Inglaterra e Nova Jersey e incentivou os leitores a pedir pressão ao governo provisório em Portugal para remover comunistas. 

Congressistas em áreas com muitos luso-americanos recebiam cartas constantemente a alertar para a situação e houve sucessivas iniciativas de angariação de fundos bem-sucedidas, tanto para auxiliar os líderes anticomunistas em Portugal como para financiar o movimento independentista dos Açores. 

Daniela Melo identificou quatro organizações pró independência ativas só na Nova Inglaterra: Movimento para a Autodeterminação do Povo Açoriano, Movimento para a Independência dos Açores, Frente para a Libertação dos Açores (FLA) e Comité Açoriano 75 (CA-75). 

Estes esforços não passaram despercebidos em Portugal durante o período tenso que se seguiu à revolução. 

“É muito claro que os partidos políticos em Portugal estavam a contar com a mobilização para obter apoio financeiro para as suas atividades”, referiu Daniela Melo. 

A professora sublinhou que “há aqui toda uma história que tem de ser descompactada” e disse que vai continuar a sua pesquisa, alargando-a a mais regiões e comunidades portuguesas nos Estados Unidos. 

A apresentação “A diáspora e a revolução”, explorando o ativismo luso-americano em 1974-75, foi feita na abertura da 47ª conferência da LAEF, que este ano é dedicada aos (quase) 50 anos de democracia em Portugal. 

Intitulada “Cravos em Setembro?”, a conferência tem a organização do Instituto Português Além-Fronteiras (PBBI) na Califórnia e contou com declarações de José Andrade, diretor regional das comunidades no governo dos Açores, na sessão de abertura. 

O responsável sublinhou a oportunidade do tema e disse que, no último meio século, “os Açores tiveram um desenvolvimento maior que o que tiveram nos cinco séculos anteriores”. 

Veja aqui a conferência.

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