De que está à procura ?

Lisboa
Porto
Faro
Colunistas

O perigo da familiaridade excessiva

Estando certa tarde de domingo a conversar com amigo, este, a determinado momento, saiu-se com esta: “Sempre que me torno amigo de alguém perco, para ele, metade do valor. Passa a duvidar de tudo o que penso, digo e afirmo.”

Esta opinião com que apenas concordo em parte, fez-me lembrar o que disse a grande fadista Amália Rodrigues, em declaração ao semanário Sete em 1983: “Agora leio pouco, porque, ao conhecer os autores das obras, tenho muitas desilusões…”.

O escritor, o poeta, o cronista perde encanto, até respeito, logo que se torna amigo do leitor.

A familiaridade retira valor a quem escreve.

Para os que convivem, diariamente, com ele, e partilham os mesmos utensílios, o intelectual não passa de ser excêntrico, um preguiçoso. Como dizia uma criada de Herculano, por o ver sempre a ler e a escrever: um desadaptado incorrigível.

Se há, por vezes, nos familiares orgulho e vaidade por se verem aparentados com o autor do livro que se encontra no escaparate do livreiro, existe igualmente a reprovação por passar horas a fio, de pena na mão, a ler e a rebuscar apontamentos, entre montes de papéis, em lugar de conviver com a família e amigos à mesa da cafetaria.

Amália Rodrigues afirmava várias vezes que ao ler as letras das canções ficava admirada com o talento do autor e fantasiava-o esbelto e cortês.

Levada pela curiosidade, procurava conhecê-lo pessoalmente mas na maioria das vezes sofria grandes desilusões, até desgostos profundos.

No memorial de Clarissa – personagem querida de Erico Veríssimo, – em “Música ao Longe”, esta diz que sofreu séria desilusão, ao verificar que o famoso poeta Paulo Madrigal, que imaginara elegante e gentil, não passava de pobre diabo, caixeiro-viajante, de indesejáveis tiques nervosos.

Ao invés da lei da perspectiva, o intelectual torna-se grande quando está longe. O escritor parece-nos mais talentoso quando nos é inacessível e vive em longínqua paragem.

O mesmo acontece às instituições e universidades.

Como o crente, que percorre léguas, em demanda de santuário mariano para pedir a graça que necessita (esquecendo que Maria tanto está lá como na sua paróquia,) também alguns licenciados procuram obter mestrado e doutoramento em longínquas universidades, olvidando que, por vezes, os professores onde estudou são mais competentes e saberiam apreciar melhor a tese do que aqueles.

Mas a distância, a língua estranha, a fama leva-os a pensar que graduando-se na sua universidade, entre os que foram companheiros e professores não terão o mesmo valor…

Infelizmente, a sociedade também pensa assim.

Conheci jovem que se formou numa universidade portuguesa. Quando começou a procurar emprego, logo verificou que os preferidos eram os candidatos graduados na América e Inglaterra.

Os selecionadores, em regra, não conhecem a Universidade onde o candidato obteve o mestrado, mas impressionam-se, ao verificar, que o certificado apresentado está passado em inglês…

Bacoquice?! Certamente que sim; mas o que havemos de fazer?!

O mundo é assim… e quem quer singrar tem de obedecer às “leis” que vigoram.