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British Summer Time: Roger Waters – Us and Them

Roger Waters, Us and Them, marcou o pontapé de saída do British Summer Time a decorrer em Hyde Park, Londres, mesmo ao lado do Buckingham Palace onde sua Majestade a rainha e grande parte da família real britânica tem residência oficial.

Durante a primeira quinzena de julho são muitos e bons os músicos que vão passar por Hyde Park. The Cure, Eric Clapton, Santana, Steve Winwood, Michael Bublé, Van Morrinson, Bananarama, Bruno Mars, Paul Simon, James Taylor, Bonnie Raitt entre muitos outros.

Cada evento é uma espécie de minifestival, com bandas de apoio aos cabeças de cartaz. No passado dia 6 de Julho as bandas de apoio ao monumental concerto de Roger Waters foram Richard Ashcroft, Ex Verve, Seasick Steve, Squeeze, X Embassadors, Slydigs, Colin Macleod, CC Smugglers e Lil&Ollie.

Os primeiros sinais de que grande parte dos milhares de pessoas que se deslocaram a Hyde Park o faziam essencialmente atraídos pelo cabeça de cartaz, Roger Waters, começaram a ser evidentes assim que entrei no comboio, na estação de Leighton Buzzard para Euston Londres. As t-shirts de Roger Waters e Pink Floyd eram visivelmente notadas, não só no vagão onde procurei um lugar para me sentar, bem como, constataria mais tarde na estação de Euston, noutros vagões que compunham o comboio. Curiosamente, ou não, em muitos casos famílias a representar diferentes gerações de admiradores do grande génio. Em alguns casos, certamente os mais novos influenciados pelos gostos musicais dos pais.

Em Euston, para ter a certeza de que não andaria a gastar tempo desnecessário nos labirintos do metro dirigi-me a um policia que de olhos ávidos e atentos observava a azáfama das multidões que se movimentavam em encruzilhadas de pressa e correria, e nem sequer precisei de formular a pergunta toda, uma vez que, assim que disse…”Excuse me…” denunciado pela minha t-shirt dos Pink Floyd, ele prontamente respondeu, “Take the Victoria Line to Green Park and from there is a five minutes walk.” Agradeci-lhe com um sorriso e antes que me fosse ainda o ouvi dizer “I’m very jealous”.

Ao contrário de outros grandes concertos a que durante a minha vida tive oportunidade de assistir, entre eles Rolling Stones, Genesis, Roger Waters e Pink Floyd, divididos entre Lisboa, Madrid, Londres e Holanda, desta vez a erva não a fumei, pisei-a e sentei-me nela, ansiosamente à espera do grande concerto, e emoções fabricadas ou impulsionadas por qualquer substância só mesmo uns cafés que tomei no recinto e a garrafa de água que fui mantendo na mochila para me hidratar pois estava um destes raros dias de imenso calor em terras de sua Majestade.

No palco principal, (Oak stage) Seasick Steve começou por animar a plateia, que por essa altura andava ainda muito dispersa entre as barraquinhas de comida e bebida, com especial incidência para a cerveja.

Seasick Steve é um americano nascido em Oakland Califórnia que toca essencialmente blues rock e que teve uma enorme expansão no Reino Unido depois de ter aparecido no programa de Jools Holland na BBC. Ritmos fortes em guitarras personalizadas e um estilo blues tipicamente americano. Boa música.

Depois foi a vez de Richard Ashcroft, ex-The Verve. Fez o seu papel, mas depois da terceira canção, para mim tornou-se um pouco monótono, com ritmos muito do mesmo. Teve, no entanto, a audiência a cantar com ele ao interpretar o clássico “Bitter Sweet Symphony”.

E à hora marcada, com a exímia pontualidade britânica, Roger Waters e a sua banda aparecem em palco, a abrir o espetáculo com “Breathe” do álbum Dark Side of The Moon. O sistema de som quadrifónico a ecoar pelos quatro cantos do parque e em vários momentos durante todo o espetáculo não era estranho verem-se cabeças a mover em todas as direções à procura de sons que pareciam vir de fora do recinto, para dentro. Momentos memoráveis e ao mesmo tempo tocantes, como na música do novo álbum de Waters, “The Last Refugee” onde se podia ouvir em pano de fundo as notícias de última hora referentes ao náufrago de mais de 200 refugiados no mediterrâneo.

Um espetáculo gigantesco de um músico que tudo tenta para por o mundo no seu lugar.

Foi nos velhos clássicos de Pink Floyd que o público mais vibrou. Us and Them, Wish You Were Here, One of these Days, Comfortably Numb, Welcome to the Machine, Brain Damage, Another Brick in The Wall, etc. Músicas que movem multidões, em momentos fascinantes de acordes abertos e harmonia clara, seguidos de solos de rock profundo e letras poéticas, os condimentos necessários para se fechar os olhos e absorver tudo completamente.

Muita da crítica classifica o espetáculo de Roger Waters como profundamente político. Discordo plenamente. Se é certo que tem várias alusões a Donald Trump, algumas de uma agressiva coragem, tão típica de um homem de convicções fortes como Waters, tudo o que se aponta em relação ao homem que governa um dos países com mais impacto no nosso planeta, é que ele não passa de um idiota, “With no fu…k…g brains”. As opiniões de Waters em relação a Trump estão bem explicitas neste novo álbum, “Is this the Life We Really Want” e em particular nesta tour Us and Them que começou precisamente na América há mais de um ano.

Uma das principais mensagens durante o espetáculo, com maior incidência na música, “Another Brick in The Wall” é Resist, palavra que se pode ver imprimida nas t’shirts das crianças da escola de Portobello em Londres, chamadas a atuar em palco, vestidas de fatos cor-de-laranja a simbolizar os prisioneiros de Guantanamo Bay. Resist. Mas resistir a quem e a quê? Resistir ao neofascismo, à poluição do planeta, aos lucros da guerra, Mark Zuckerberg, a tentativa de silenciar Julian Assange, resistir aos porcos que governam o mundo e que põem em perigo a paz mundial e o nosso bem-estar. Resistir aos hipócritas e a todos que enchem os bolsos à custa do sofrimento e do desespero da maioria da população.

Li uma critica de um conhecido apresentador britânico, Jeremy Clarkson, que dizia, “Pois é, mas Roger Waters tem um Lexus por trás do palco para fugir dos pobres.” Comentário que em minha opinião ilustra bem como a “inteligência”, o sucesso e a estupidez podem andar de mãos dadas. Roger Waters não está contra as pessoas que têm muito dinheiro, mas sim contra aqueles que se empanturram em caviar e champanhe à custa de lucros ilícitos e manobras de aproveitamento dos mais fracos. Contra a tortura com a conivência do Estado, o tratamento que se dá à crise dos refugiados, à ganância das corporações, à guerra dos drones, etc. Há quem chame às críticas de Waters politiquices. Eu chamo-lhe humanismo, justiça, igualdade de direitos universais de humanidade. Roger Waters sempre escreveu canções sobre autoritarismo, guerra, morte, poder, etc.

Antes de terminar o espetáculo com a música “Confortably Numb”, Roger Waters fez menção à Declaração Universal dos Direitos Humanos, criada em 1948 em Chaillot, Paris, declaração essa que garante e reconhece os direitos básicos de todos os seres humanos. Direito à vida, à propriedade privada, liberdade de pensamento, expressão, crença, igualdade formal, direito à nacionalidade, participação no estado etc.

“E isto…” disse ostentando um típico lenço árabe que lhe fora oferecido por um amigo na noite anterior, “estende-se a todos os meus irmãos e irmãs na Palestina”.

Waters é um fervoroso defensor da causa Palestiniana em que o povo está barbaramente a ser dizimado e despojado das suas casas e das suas terras às mãos de Israel com o consentimento e a cumplicidade de muitos países que fingem não ver nem ouvir as atrocidades, a América de Trump incluída.

O concerto teve vários momentos altos e um deles foi na abertura da segunda parte do espetáculo em que das entranhas da terra surgiu a famosa Battersie Power Station magicamente edificada em tamanho gigantesco em pleno parque, com o famoso porco insuflável entre as duas torres da frente. Durante o concerto um outro porco insuflável a voar por cima da multidão com a frase, “Stay Human Or Die” e em frente do palco um sistema de raios laser simbolizava as pirâmides de Dark Side of The Moon.

Aos 74 anos de idade Roger Waters provou uma vez mais a sua vitalidade e a sua paixão pela música e pelas causas que através dessa música numa enorme e inabalável convicção, defende.

Para mim… continua a ser o melhor.