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Opinião

Ana Lúcia Queiroz: uma nova consciência em torno de nosso patrimônio histórico

Formada em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), pós-graduanda pelo Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo (IEBUSP), autora de Paulicéia Desvelada (2011), Imagens, Receitas e Ladainhas da Fala dos Reis (2012) e Maracangalha, Vida e Obra de Sylvia de Leon Chalreo (2014) e co-autora do recém-lançado Vestígios da MemóriaFotografias do Patrimônio Arquitetônico Paulista, Ana Lúcia Queiroz dirige, atualmente, a Illumina Imagens e Memória, empresa que atua na elaboração e desenvolvimento de projetos culturais.

Nesta entrevista, com rara lucidez, analisa algumas questões relativas a nosso patrimônio histórico, tema de Vestígios da Memória.

A preocupação em preservar o patrimônio arquitetônico nacional começou há pouco mais de 80 anos. De lá para cá, que balanço podemos fazer?

Em 80 anos, muitos passos foram dados e essa história certamente é maior do que o espaço nessa revista. Com a criação de órgãos de preservação nas esferas estadual e municipal e o aprofundamento do debate na área, podemos dizer que hoje possuímos um aparato técnico-científico que confere uma base segura para as escolhas, tanto para a realização dos tombamentos, quanto para as intervenções durante os processos de restauração. No entanto, a luta pela preservação do patrimônio arquitetônico é árdua, principalmente por ir de encontro a interesses econômicos poderosos, relacionados principalmente à especulação imobiliária. Temos também um longo caminho a percorrer no que se refere ao envolvimento da sociedade: quantos cidadãos conseguem relacionar o afeto que sentem por um edifício ou conjunto de imóveis, que lhes remetem a um mundo passado, com a importância da preservação arquitetônica? Quantos sabem que podem entrar com pedido de tombamento, em qualquer órgão de preservação, de imóveis que consideram importantes para a memória de sua comunidade? Falta conhecimento e informação. No livro Vestígios da Memória mostramos alguns exemplos de mobilização da sociedade que resultaram na preservação e reutilização do patrimônio arquitetônico, como aconteceu com o teatro de São João da Boa Vista, a ponte Torta de Jundiaí e o grupo escolar da Vila Guilherme, em São Paulo.

Nomes como Mário de Andrade, Rodrigo Mello Franco e Lúcio Costa são figuras centrais na criação do Iphan – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional -, durante o governo Vargas. Que papel tiveram esses intelectuais naquele período?

Na apresentação do livro Vestígios da Memória, a arquiteta Silvia Ferreira Santos Wolff conta sobre a atuação de Carlos Drummond de Andrade, Mário de Andrade e Lúcio Costa no processo de criação do Iphan: “Estes intelectuais desenhavam as primeiras ações ao lado de técnicos, arquitetos, historiadores, engenheiros e fotógrafos que documentavam e registravam os edifícios, as peças de museu e as intervenções nas construções”. Foram os responsáveis pela identificação e seleção do que deveria perdurar para as próximas gerações e ao mesmo tempo construíram explicações sobre o que seria a identidade nacional e sua história, diz Wolff. Juntos a uma equipe multidisciplinar, eles empreenderam um ambicioso projeto abrangendo uma série de pesquisas que causaram impactos nos meios políticos e intelectuais, a medida em que, pela primeira vez na história do Brasil, a diversidade cultural da nação era mostrada a todo o país. A sua importância, criativa e fundadora, não pode nos fazer esquecer, no entanto, que a construção da imagem de nação brasileira fazia parte de um projeto maior, um projeto de Estado, que mais do que dialogar, patrocinava a atuação desses intelectuais e, portanto, tinha grande força e interferência na escolha dos critérios e obras que deveriam ser preservadas. Além deles, a rede formada por profissionais de diferentes ramos e conhecimentos e o próprio cidadão são atores que direta ou indiretamente, pela ação ou omissão, selecionaram as obras e construíram as explicações que permeiam o senso comum sobre o que é o Brasil e o que é ser brasileiro.

Qual a importância da história arquitetônica paulista no cenário nacional, tema do recém-lançado Vestígios da Memória, livro de fotografias que resgata momentos significativos da arquitetura do estado de São Paulo?

Não vejo como uma competição, onde uma localidade pode ser mais expressiva ou mais importante que outra. Cada local tem seu tempo, sua cultura, seus moradores e os imóveis construídos durante a sua existência. Os sentidos atribuídos a um determinado imóvel variam em relação a tais especificidades. Em Fernandópolis, o fotógrafo Pierre Duarte escolheu a igreja Santa Rita de Cássia, inaugurada há apenas 57 anos. Um edifício que não carrega nenhuma característica arquitetônica exemplar e não foi construído por um arquiteto reconhecido. No entanto, ela representa muito para a comunidade. No texto que acompanha a fotografia, chamo a atenção para as marcas das lutas pela propriedade da terra que carrega e para o espaço de sociabilidade que representou e ainda representa na vida dos moradores. Por outro lado, São Paulo é o estado mais rico do país desde o início do século XX. A riqueza produzida pelo café e industrialização se materializou em edificações que carregam marcas não só da história do estado, mas de todo o país. O seu papel central na economia nacional, que perdura até, hoje faz dessas edificações vestígios de histórias do Brasil e de brasileiros de todos os cantos.

O Condephaat – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico – órgão do Governo do Estado de São Paulo, tem conseguido se contrapor a interesses econômicos que comumente não levam em conta valores culturais?

Como já foi dito, o trabalho é cumulativo e a luta é árdua. Mais do que uma contraposição, acredito que o poder público deve buscar a cooperação, procurando aliar interesses contrários. Podemos citar como exemplo de uma ação positiva, a preservação da Casa das Rosas, em São Paulo, projeto que uniu interesses do ramo imobiliário ao da preservação de um belo palacete na Avenida Paulista.

A pujança da arquitetura paulista, na primeira metade do século XX, ocupa grande parte de Vestígios da Memória. Antes daquele período, podemos dizer que nossa tosca arquitetura tinha pouca representatividade, ao contrário, por exemplo, do que se deu em Minas Gerais, ainda no século XVIII, com o apogeu da arquitetura barroca?

Novamente depende dos significados que atribuímos ao sítio ou edificação arquitetônica. No século XVIII, São Paulo era uma província economicamente fraca no cenário nacional, enquanto que Minas Gerais era o estado que mais riqueza produzia, com o conhecido ciclo do ouro. Por isso, é lá que existem as edificações mais ricas daquele período. Por outro lado, as primeiras ações do Iphan visaram os conjuntos arquitetônicos de Minas Gerais, o que contribuiu fortemente para a sua preservação. A pergunta que devemos fazer é: apenas a arquitetura construída para uso da elite e pelo estado é patrimônio histórico da nação? Só elas trazem vestígios da história do Brasil? Como conhecer como vive e vivia a maioria dos brasileiros que não faz parte dessa elite, se não preservarmos exemplares de edificações e equipamentos urbanos populares?

Qual a solução para que bens tombados tenham sua preservação viabilizada sem que haja estreita dependência do poder público?

Há um intenso debate entre os profissionais da área sobre este assunto. A cooperação entre governos, organizações sem fins lucrativos e instituições internacionais em torno de projetos, isenções tributárias e convênios com universidades e a difusão de conhecimentos sobre os conceitos de memória, preservação e tombamento são alguns componentes importantes desta solução.

A que atribuir o abandono, infelizmente, tão comum de nosso patrimônio histórico e qual o melhor antídoto para nos contrapormos a ele?

O abandono de tantos imóveis, como o cine Santo Antônio, de Adamantina, ou a Vila Maria Zélia, em São Paulo, retratados no livro, é principalmente gerado pela luta entre interesse público e interesses econômicos e pela falta de consciência e conhecimento da população. Vestígios da Memória vem para contribuir com tal conscientização.

Quais critérios nortearam a escolha das obras arquitetônicas e dos fotógrafos que integram Vestígios da Memória?

A pesquisa de imagens foi feita através de uma convocatória, convidando fotógrafos profissionais a apresentarem imagens de obras arquitetônicas que houvessem lhes chamado atenção, que fizessem parte de seu arquivo. Pesquisamos também no banco da Pulsar Imagens, especializada em fotografias de arte e cultura. Por último, convidamos fotógrafos a cobrir as localidades ainda não contempladas com a pesquisa anterior. A curadoria tinha como principais metas contemplar obras de diferentes regiões do estado de São Paulo que retratassem não só a vida econômica, mas também a vida social e cultural das localidades. A questão estética norteou todo o processo. Outro ponto que ressalto é que além da curadoria, a autoria também é compartilhada. Os dezenove fotógrafos, com textos e imagens, Ana Lúcia Queiroz, redação dos textos que acompanham cada imagem, Silvia Wolff, redação do texto de apresentação e Marta Oliveira, com o projeto gráfico, fazem parte da equipe de autores.

Por que a opção de publicar os registros fotográficos em preto e branco?

Escolhemos o preto e branco porque a remoção da cor traz os detalhes ocultos, texturas e formas, instigando a imaginação e aprofundando a reflexão sobre o objeto fotografado, o que vinha de interesse ao nosso principal objetivo.

Algum projeto de nova série de fotografias visando o resgate da memória arquitetônica de outros estados brasileiros?

Nosso novo projeto na área de patrimônio arquitetônico inova na interdisciplinaridade. Aqui Nasceu a Literatura é um livro de fotografias das casas de renomados escritores brasileiros, acompanhadas de crônicas de Luiz Ruffato, escritor brasileiro, que entre outros prêmios, foi contemplado com o Troféu APCA, em 2011, o Jabuti, em 2015, e o Prêmio Internacional Hermann Hesse, no ano passado. As imagens, que abarcarão residências de Norte a Sul do país, de Tomás Antônio Gonzaga (século XVIII) a Dalton Trevisan, (Curitiba/PR, 1925), serão da fotógrafa Márcia Zoet.

A ideia de prosseguirmos para outros estados com o projeto Vestígios da Memória ainda está em maturação. A Illumina pretende, antes disso, produzir uma exposição das fotografias publicadas no livro sobre o patrimônio do estado de São Paulo.

Sobre os autores da entrevista: Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.