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Carnaval cabo-verdiano teve toque açoriano

As marchas de São João da Terceira, Açores, abriram este ano o desfile principal do Carnaval da Praia, perante milhares de pessoas e a aposta em tornar a iniciativa num dos grandes eventos da capital cabo-verdiana.

Depois de três anos consecutivos a desfilar no Carnaval do Mindelo, na ilha de São Vicente, a “Marcha dos Amigos da Néné”, com mais de 60 pessoas, chegou este ano ao desfile da Praia, liderada por ‘Dona Néné’, uma cabo-verdiana radicada nos Açores há quatro décadas que nem a bruma seca que cobriu a cidade impediu de fazer a festa em casa.

“Viemos para nos divertir, desfilar e divertir o povo também”, contou à Lusa Inês Furtado, mãe do jogador de futebol Eliseu, campeão europeu por Portugal.

Mais conhecida por ‘Dona Néné’, a madrinha e líder desta marcha popular, dos Açores, explicou que o primeiro convite para desfilar, ainda no Carnaval do Mindelo, foi feito há três anos, quando o autarca local assistiu às marchas na ilha Terceira.

Em 2020, após muita economia, a viagem foi até à capital, na ilha de Santiago: “Tivemos que poupar para estar cá porque a passagem não é baratinha. Mas fizemos o esforço porque a gente gosta e vale a pena”.

‘Dona Néné’, que emigrou para Portugal aos 17 anos, desfilou precisamente na ilha onde nasceu há 61 anos.

“Eu fico emocionada”, contou, durante o desfile, embora sem esconder os receios de levar o ritmo da marcha de São João ao ‘sambódromo’ instalado em pleno centro da Praia, com milhares de foliões a assistir.

A prova acabaria por ser ultrapassada pela “Marcha dos Amigos da Néné”, por entre passos devidamente sincronizados e debaixo do constante aplauso das bancadas, para emoção da cabo-verdiana Ema Silva, de 65 anos. Antiga emigrante na Suíça, há 10 anos voltou a Cabo Verde e, entretanto, tornou-se numa espécie de membro honorário do grupo que viajou da ilha Terceira.

Depois de três anos a levar a marcha ao Carnaval do Mindelo, Ema Silva conseguiu em 2020 convencer os restantes colegas a desfilarem na Praia e também para ela foi uma estreia.

“É uma emoção grande. A primeira vez que estou a desfilar e logo na minha ilha”, contou, satisfeita com o sucesso da marcha, que antecedeu a entrada dos seis grupos oficiais cabo-verdianos que disputam o título de 2020: Vindos d’África, Maravilhas do Infinito, Sambajó, Vindo do Mar, Bloco Afro Abel Djassi e Deusa do Amor.

Para Júlia Silveira, 40 anos, nascida e criada nos Açores, esta foi a primeira vez na Praia, onde encontrou um carnaval diferente.

“Muita festa, muita animação. Estou a adorar”, contou.

O grupo aproveitou a viagem e recolheu nos Açores roupas e material escolar para as crianças mais carenciadas em Cabo Verde e depois do grande momento de abrir o desfile da capital, vai passar os próximos dias em ‘marcha’ noutros pontos da ilha de Santiago e a distribuir material.

“Há umas coisas que mexem com o coração, mas estou a gostar muito”, confessou, admitindo ainda que o desfile, percorrendo a avenida entre a animação de grupos de mandingas ou de típicas dançarinas de samba brasileiro, foi uma experiência diferente das festas populares em que aquela marcha participa ao longo do ano nas ilhas dos Açores.

“É sempre uma experiência nova”, disse.

Na plateia, a assistir ao desfile, estava o ministro da Cultura de Cabo Verde, que este ano optou pelo Carnaval da Praia, apesar da referência que é o carnaval mais a norte.

Para Abraão Vicente, o carnaval de São Nicolau e o sobretudo o do Mindelo (ilha de São Vicente) são a aposta do Governo para “internacionalizar” esta época festiva e “pôr o nome de Cabo Verde no mapa” e a Praia, pela sua dimensão populacional “pode, com o tempo, desenvolver um Carnaval de relevo”.

Com as várias mudanças em curso, como no apoio direto aos grupos, o governante defendeu que este está a ser um “ano crucial” para a nova vida que se pretende dar ao Carnaval da Praia.

“Este ano, as expectativas são altas porque os grupos tiveram mais recursos e mais tempo para trabalhar”, explicou, vaticinando que é “uma questão de tempo” para o Carnaval popular da Praia, com raízes nos anos 40 do século passado, voltar a fazer a diferença.

Para Abraão Vicente, o potencial da Praia é não apenas o de desfiles e grupos, mas também o carnaval popular.

“As pessoas que de forma espontânea se disfarçam e se mascaram e saem à rua. E, portanto, é preciso criar uma outra maneira, porque a Praia tem potencial para ter milhares e milhares de pessoas a conviver, para além desta festa”, afirmou.

E por isso rejeita que se fala em concorrência entre o carnaval das várias ilhas: “Não há necessidade de concorrência porque as pessoas vivem em ilhas e cada um vai viver o seu carnaval. E a qualidade de cada grupo, definirá”.

Ainda assim, sobre o mítico Carnaval do Mindelo, que também saiu à rua mobilizando milhares de turistas, Abraão Vicente defendeu que precisa de chegar a “um outro nível de profissionalização” e evitar a venda de bilhetes para assistir ao desfile “em cima da hora”, como aconteceu.

“Fazer com que todos tenham acesso ao Carnaval do Mindelo. O Carnaval do Mindelo sem os mindelenses não faz sentido. E evitar os espetáculos tristes a que assistimos nos últimos dias, de pessoas a dormir na rua para comprar bilhete, pessoas a reservar lugares no dia anterior”, afirmou.

Considerada a maior festa popular em Cabo Verde, a Câmara da Praia aumentou este ano para 10 milhões de escudos (90 mil euros) o investimento no Carnaval, além dos apoios diretos aos grupos, com instalação de luz, som e bancadas para 2.000 pessoas, receitas que depois revertem para os grupos que desfilam pela avenida principal.

Para o presidente da Câmara, Óscar Santos, a aposta em tornar a Praia numa referência do Carnaval de Cabo Verde começou há dois anos, embora admita que “ainda há muito trabalho por fazer”.

“Não basta ter infraestrutura, boa música, boa iluminação. Às vezes falta melhor organização nível dos grupos”, disse o autarca, também numa alusão aos problemas internos que levaram à desistência de um dos sete grupos inicialmente previstos para disputar a competição oficial.

Para já, garante que o objetivo é “dar mais força” ao Carnaval da Praia, mas também se queixa da falta de apoio das empresas locais.

“Sem a câmara municipal, na Praia, é praticamente impossível fazer o Carnaval”, acrescentou.

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