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Balada de um verão azul

éramos dois sozinhos de olhos postos no
Twingo amarelo do outro lado da estrada,
escutando a festa no pavilhão encostados ao cruzeiro como
quem não quer a coisa.
passavam pessoas raramente e dava para conversar.
os miúdos na estrada jogavam à bola mas
a nós
ninguém nos via, diabos de sorte, na aldeola inteira ouvia-se que
até o padre ajudou e
a malta gritava que apertasse com ela
e nós riamos com o paternalismo de todas as ruas
do vilarejo que não nos ouvia
e enquanto o fogo de artifício não vinha
suavam as mãos dadas sem pudor.

debaixo da janela da antiga tia que do outro lado da solitária casa dormia
as flores escondiam os nossos corpos dos nossos beijos e
camuflados num tapete de rosas sem espinho
trocamos entre nós a história do primeiro amor.
longe vão os tempos em que descansávamos à
sombra dos pinheiros no verão e à sombra das nuvens
no inverno.

tão perto do determinismo dos anos que
não ficam os fragmentos de quando
éramos dois sozinhos e crianças
tão longe do niilismo natural de duas pessoas semelhantes que
perdem as esperanças quando a música de fundo se divide em
ópera
e
fado.

antes o ritmo trocado de um beco do mundo em festa
à
dança moderna que nos separou o passado.