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Maio de 68: em Grenoble lutou-se contra o fascismo em Portugal

O movimento do Maio de 68 ajudou um grupo de portugueses, em Grenoble, a começar a organizar a luta contra o fascismo em Portugal, na cidade onde o movimento “resistiu mais tempo”.

Manuel Branco tinha 19 anos quando a França ficou paralisada com greves, enfrentou a polícia em manifestações e foi falar com portugueses numa fábrica ocupada em Grenoble, mas o que mais o marcou foi o empurrão que o maio de 68 deu à causa para acabar com a ditadura em Portugal.

“Com o maio de 68 e com aquelas ideias que se foram desenvolvendo, começa a ser claro que a nossa ideia é trabalhar para acabar com o regime fascista em Portugal e a França é uma estada de algum tempo para ir para Portugal outra vez. É a partir daí que a gente passa mesmo a procurar organizar-se em Grenoble e a criar um grupo para ir para Portugal”, contou o português de 71 anos.

Em Grenoble, “o maio de 68 teve a particularidade de ter resistido mais tempo a todos os acordos que se iam fazendo em França entre partidos, sindicatos e governo”, explicou Manuel Branco, que acrescentou que se seguiram alguns anos “em efervescência”.

“Houve um grupo de estudantes aqui em Grenoble que ficou com uma situação amarga desse movimento ter parado assim tão depressa e não ter evoluído. É a partir daí que Grenoble resiste”, contou, recordando que essa resistência foi alimentada pela colaboração com o movimento maoista “Vive la Révolution” e em oposição ao Partido Comunista Francês e à confederação sindical CGT.

Manuel Branco trabalhava no âmbito do “movimento internacional de solidariedade com os povos em luta”, mas começou a juntar um grupo português, ligado à organização ‘O Comunista’ (um grupo que mais tarde se uniu com ‘O Grito do Povo’ para dar origem à Organização Comunista Marxista Leninista Portuguesa, em dissidência com o Partido Comunista Português).

Entre outros motivos, o diferendo estava principalmente ligado à posição do PCP que era contra a deserção isolada e defendia a difusão de propaganda anticolonial não só nos quartéis mas também nas frentes de batalha, enquanto as organizações dissidentes defendiam “a agitação lá dentro e quando os soldados eram mobilizados deviam desertar com armas e bagagens”.

“Desde o princípio, a minha ideia era organizar a malta portuguesa num movimento que nos permitisse organizar, entrar em Portugal e acabar com o fascismo em Portugal”, lembrou.

O grupo defendia “que a revolução viria de um levantamento do povo português”, pelo que era necessário “fazer uma implantação nas fábricas, nos campos, nos escritórios, nas universidades, nas escolas e por todo o lado para criar grupos cada vez mais ligados à população”.

A implantação começou no seio dos emigrantes, em França, nos bairros e nos trabalhos onde havia portugueses, através de ações contra a guerra colonial e contra o fascismo, passando de “três a quatro estudantes para 10, 20, 30, 40, 50” com a adesão de “muita malta jovem operária”.

“Estas ideias de 68 evoluíram e chegaram a 70, 71, quando já tínhamos dezenas e dezenas de jovens que aderiam ao nosso trabalho. Organizámos festas, salas, associações que permitissem juntar essa gente para todas as atividades ligadas à emigração, futebol, folclore, jogar às cartas, beber uns copos, teatro, cinema”, lembrou.

Manuel Branco sublinhou que a ideia era mobilizar os emigrantes “para lutar contra o regime fascista em Portugal” e a “malta mais politizada” começou a agrupar-se em “comités de apoio aos desertores”, que faziam entrar documentos dentro do exército português.

Em junho de 1972, Manuel foi um dos fundadores de “O Alarme”, “um jornal popular para unificar essa gente toda” que “dava apoio à deserção” e que falava de futebol, folclore, greves e até do “aborto que era proibido na altura”.

A “abrir o caminho para todo este trabalho” esteve o maio de 68 que “esclareceu e agudizou” este grupo de portugueses em Grenoble na luta contra o fascismo através de livros que eram inacessíveis em Portugal, da participação em debates e manifestações e da efervescência intelectual do movimento que “acabou com a gangrena e ideias retrógradas” em França.