Wind of Change, ou a encruzilhada do Ocidente desfalecendo

Com a faixa Wind of Change, do album significativamente nomeado como Crazy World, de 1990, os Scorpions olhavam, como a Alemanha sempre tem feito, para leste e davam graças pelo fim da hegemonia soviética, como se os tempos de mudança avançassem para um “Fim da História”, parafraseando Fukuyama.
E avançavam, sim. Por essa mesma altura, descobri Cioran o seu Histoire et utopie, um filósofo infelizmente pouco lido por estas praias atlânticas. Nessa minha leitura de pós-queda do Muro de Berlim, o sentido desse texto era quase profético ou, até, escatológico: depois de dividido o mundo em dois blocos, depois de criada essa cisão tão forte que dividira a Europa e o mundo durante décadas, deixara-se de ter a capacidade para criar utopias.
E hoje, cinquenta anos depois de Cioran, mais de vinte depois dos Scorpions, que Europa temos? A Europa, com a EU à cabeça, não consegue perceber o sentido do novo wind of change, nem sabe como encontrar medidas que estejam para além de um pseudo-pragmatismo imediato. O ocidente perdeu a capacidade de pensar um futuro diferente do que tem, o que se verifica cada vez mais na incapacidade de criar soluções ao tecnocratismo estabelecido.
Com o fim da Guerra Fria, uma das verdades feitas pelo senso comum ia no sentido de um desarmamento global. Os inimigos deixariam de o ser. A corrida ao armamento já não tinha o sentido “patrioteiro” de outros tempos. Mas nada disso aconteceu. Hoje, o défice de Portugal tem tudo a ver com o Norte-Americano. Nós, neste lado do Atlântico, comprámos submarinos a preços loucos, eles, do lado de lá, continuaram a ter um exército que inventou novas guerras, que continuou a sorver parte grande de um orçamento cada vez mais desequilibrado, submetendo-se à indústria de armamento – sim, temos a maior potência do mundo a viver em “esforço de guerra” desde, pelo menos, o desaire do Vietname.
Hoje, com um Médio Oriente esfrangalhado, desestabilizado e sem identidade, depois de se ter recusado o direito de Europa à Turquia, e com a Ucrânia em verdadeira guerra civil, a Rússia cria um novo conceito militar onde regressa a todos os fantasmas de antigamente.
Para além da posição de um ranking, para além de como pagar as dívidas no orçamento que vem, o que queremos enquanto cidadãos europeus que carregam orgulhosamente uma História de superações a que chamamos civilização?
Que queremos nós, cada um dos cidadãos europeus, o que quer a Europa? Mais do que perguntar como vamos sair da crise, interessa perguntar para onde vamos sair. Aquilo a que chamamos crise é apenas o resultado de uma entediante e sustentada falta de visão e de estratégia. Estasiados no barulho das luzes de cada momento, esquecemos de olhar para o futuro.
Que 2015 seja mais que gestão corrente e volte a ser de prospectiva. A saída da crise, simplesmente, não pode ser solução que nos satisfaça.
Paulo Mendes Pinto
