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WAICF2026 Cannes: Da teoria à prática, a IA mostra impacto real nos negócios

© Raúl Reis / BOM DIA


Com o Mediterrâneo como pano de fundo e o glamour do Palais des Festivals a servir de palco, a 5ª edição do World AI Cannes Festival (WAICF) provou que a inteligência artificial (IA) deixou para trás a fase de especulação tecnológica para entrar na era da implementação concreta.

Entre 12 e 13 de fevereiro, mais de 10.000 participantes, incluindo 320 oradores internacionais e 220 expositores, debateram não só o futuro da IA, mas sobretudo como colocá-la ao serviço das empresas e da sociedade, com destaque para casos que demonstram que a inovação já está a transformar setores tão díspares como a moda, a logística de feiras ou a infraestrutura de data centres.

Da digitalização rápida à soberania tecnológica: Casos que marcam a diferença

O BOM DIA acompanhou o evento com a Chambre de Commerce de Luxembourg e empresas do grão-ducado, tendo abordado algumas delas para descobrir diferentes atividades ligadas à inteligência artificial.

Fundada em 2010, a eFolix é um exemplo de como a IA pode democratizar a transformação digital – até para os mais resistentes à tecnologia. Especializada em soluções B2B para o setor da moda (fornece sistemas a muitas empresas de distribuição têxtil em França), a empresa desenvolveu plataformas como a MC.App e o Microstore, que integram IA para gestão de stocks, vendas e logística.

O segredo? Simplicidade e adaptabilidade. “Muitos dos nossos clientes são empresários mais velhos, relutantes em adotar novas tecnologias”, explicou Bin Guo ao BOM DIA. A solução passou por criar aplicações tão intuitivas que até funcionaram, no passado, em iPhone 3; um detalhe que conquistou até uma senhora idosa, hoje embaixadora informal da app. “Ela agora ensina outros comerciantes a usá-la. É a prova de que a IA não é só para techies“, acrescentou.

O apoio da câmara de comércio luxemburguesa foi decisivo: a eFOLIX nasceu no espaço Entreprises, que ofereceu mentoria e rede de contactos. “Sem isso, não teríamos crescido tão rápido”, admitiu Guo. Hoje, a empresa promete digitalizar um negócio em apenas uma semana, um registo que atraiu olhares de potenciais parceiros em Cannes.

Raúl Reis / BOM DIA

Montar um stand numa feira como a MIPIM ou o Festival de Cinema de Cannes é um quebra-cabeças logístico — e as regras estão a ficar cada vez mais rígidas. “Temos apenas um dia e meio para montar tudo, com restrições de espaço e segurança”, explicou Delphine Michel, da Fairfair, empresa especializada em stands modulares, e que assegurou o espaço do Luxemburgo na WAICF.

A empresa de Delphine Michel conta com a tecnologia como coordenadora invisível: algoritmos otimizam o layout dos espaços, preveem fluxos de visitantes e até sugerem materiais sustentáveis. “Antes, era tudo baseado no feeling. Agora, a tecnologia diz-nos exatamente onde colocar cada elemento para maximizar o impacto”, contou ao BOM DIA. Apesar dos desafios, Cannes continua a ser o seu evento preferido: “Paris é stressante. Aqui, o mar acalma tudo — até os prazos mais apertados.”

Se há um tema que dominou os bastidores do WAICF foi a soberania tecnológica europeia — e a Infercom, liderada pelo informático turco Altug Eker, trouxe uma proposta necessária: substituir as GPUs tradicionais por RDUs (Rational Data Units), concebidos especificamente para IA.

O problema qual é? Treinar modelos de IA consome memória e energia em quantidades insustentáveis. “Uma GPU gasta o equivalente a 10 casas em eletricidade por dia”, alertou Altug Eker. Os RDUs, por outro lado, reduzem o consumo energético para menos de metade, sem comprometer o desempenho. Além disso, garantem soberania de dados: “Mesmo que a tecnologia venha de uma empresa americana, os dados não saem da Europa. Não há retenção nem acesso por terceiros.”

O próximo passo da Infercom é conquistar clientes no Luxemburgo, através de parcerias com a LuxProvider. “Queremos aliados que complementem a nossa infraestrutura, não concorrentes”, sublinhou Eker, acrescentando que a colaboração é a chave para uma IA europeia forte.

Temas centrais da WAICF 2026: Do ambiente à regulação

Além dos casos práticos, o festival debateu quatro eixos estratégicos: Soberania europeia em IA, IA frugal, governança e regulação e IA para negócios.

As delegações internacionais presentes na WAICF visitaram Sophia Antipolis, o maior tech park da França, onde se concentram empresas de IA, cibersegurança e robótica. “É aqui que se constrói a alternativa europeia”, afirmou um representante da Comissão Europeia durante a visita. Projetos como o 3IA Côte d’Azur (instituto de IA aplicada) foram destacados como modelos de colaboração entre academia e indústria.

O WAICF 2026 deixou claro que a IA já não é um conceito abstrato, mas uma ferramenta que digitaliza PMEs em dias (eFolix); otimiza logística em horas (Fairfair); reduz custos energéticos drasticamente (Infercom) e garante soberania de dados sem isolacionismo.

Como resumiu Altug Eker, da Infercom: “A Europa não precisa de copiar os EUA ou a China. Precisa de ser mais inteligente – e é isso que estamos a fazer.”

Raúl Reis / BOM DIA

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