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Voltarei a ver Lisboa?

Voltarei a ver Lisboa,
voltarei a sentar-me com Pessoa
a beber um café n’A Brasileira?
Voltarei a falar com a livreira
da velha Bertrand
voltarei a descer o Chiado amanhã?

Voltarei a ouvir o fado
ao descer a Rua do Carmo,
voltarei a falar com a florista do Rossio
e a ver aquele alegre corropio
dos lisboetas e dos turistas da rua Augusta,
voltarei a subir no elevador de Santa Justa?

Voltarei a passear em incauto passo
pelas arcadas do Terreiro do Paço
de onde Lisboa de braços abertos
abraça o Tejo e o mundo, ontem tão pertos.

Voltarei a percorrer as tuas calçadas, passeios, miradouros
esplanadas, avenidas e a Rua dos Mouros?
Voltarei a circundar o Marquês, a percorrer a Liberdade,
voltarei a saber o que significa matar a saudade?

Chamam-me diáspora
mas eu não estou disperso
para mim Portugal é um poema
e Lisboa o seu mais belo verso.
Lisboa-saudade, cidade branca
cidade aberta, cidade franca
aldeia-cidade, cidade-mundo, cidade-tudo.

Quero voltar a andar pelas ruas e vielas
da cidade que ainda tem jeitos de aldeia,
quero voltar a conversar com as velhas
sentadas à porta de generosidade cheia.
Quero voltar a ouvir os pregões nos mercados
as vendedeiras a elogiar os carapaus e os chicharros
os cauteleiros, os engraxadores a pigarrear dos cigarros
os táxis, os elétricos e até os arrumadores de carros.

Quero sentir os cheiros das churrasqueiras e dos tascos
das sardinhas a assar nas varandas e nos terraços
quero voltar a andar funiculares acima, escadinhas abaixo
quero subir ao Castelo, ir até à Graça em contrabaixo.

Quero voltar aos Restauradores, Alfama, Mouraria, ao Martim Moniz
à Estrela, à Lapa, Belém, ao Restelo, Alcântara, ao que me faz feliz
à 24 de Julho, ao Bairro Alto, ao Príncipe Real, ao Rato
Alvalade, Benfica, Marvila, Lumiar, aos Olivais, ao Beato
quero poder perambular de Algés ao Parque das Nações
Lisboa, quero ouvir os teus fados e as tuas canções
as tuas crianças a brincar nos parques
quero voltar a abraçar-te
até onde a minha vista abarque.

Traga-me um café, uma água e uma nata
a quarentena não ata nem desata e quase me mata
vou do quarto à cozinha e trago tudo num tabuleiro
jogo pão aos patos de plástico no chuveiro
passeio pela marquise, desvio pelo salão
ser português é isto, desenrascar-se com improvisação.

Voltarei a ver Lisboa?
Sim, voltarei a ver Lisboa!

José Luís Correia
JLC22032020
(Foto: Wiki Creative Commons)

(poema escrito após o repto na sua página de Facebook privada da Maria do Rosário Pedreira, da Editora Leya, aos poetas portugueses, no momento em que começou o confinamento devido à pandemia da Covid-19 em Portugal, no Luxemburgo e um pouco por toda a Europa, em março de 2020)

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