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Via-Sacra no Vaticano com as vítimas do tráfico humano no centro das atenções

A Via-Sacra no Coliseu de Roma, esta Sexta-Feira Santa, vai recordar em 14 Estações todas as vítimas do tráfico humano, em especial os menores, as mulheres forçadas à prostituição e os migrantes.

Num texto publicado no portal ‘Vatican News’, a Santa Sé salienta que estas pessoas “são os novos crucificados que devem despertar as consciências de todos”.

A celebração desta Sexta-Feira Santa, presidida pelo Papa Francisco, está marcada para as 21h15 de Roma (menos uma hora em Lisboa).

Este ano as meditações da Via Sacra foram confiadas à religiosa Eugenia Bonetti, uma irmã missionária da Consolata que é também presidente da Associação ‘Slaves no more’ (Escravos nunca mais), que se tem dedicado à defesa dos mais explorados e excluídos da sociedade.

Logo na primeira Estação, inspirada pela figura de Pôncio Pilatos que presidiu ao julgamento de Cristo, a irmã Eugenia Bonetti propõe rezar “por aqueles que têm papel de responsabilidade, para que ouçam o grito dos pobres” e por “todos aquelas jovens vidas que, de diversas maneiras, são condenadas à morte pela indiferença gerada por políticas exclusivas e egoístas”.

A partir da figura de Jesus, que caminha fustigado pelos soldados e maltratado pela multidão, a religiosa exorta a olhar para os rostos dos “novos crucificados de hoje”, como “os sem-abrigo, os jovens sem esperança, sem trabalho e sem perspetivas, os imigrantes forçados a viver em barracas, à margem da sociedade, depois de terem enfrentado um sofrimento sem precedentes”.

O itinerário da Via-Sacra desta Sexta-Feira Santa, em Roma, convida a rezar também pelos mais novos que sofrem, pelas “crianças discriminadas por causa de sua origem, da cor de sua pele ou de sua classe social”.

Jesus Cristo é sublinhado como o contraponto a todo este drama, como alguém que veio trazer ao mundo uma mensagem “de serviço, perdão, renúncia e sofrimento”, alguém que testemunhou na sua vida e através das suas ações um “amor verdadeiro e desinteressado pelo próximo”.

Em todas as estações, a irmã Eugenia Bonetti partilha aquela que foi também a sua experiência pessoal, de contacto com casos de pessoas vítimas de abusos e maus-tratos, como na 3ª Estação, quando Jesus cai pela primeira vez, episódio que remete para a “fragilidade e fraqueza humana”, mas também para todos quantos hoje colaboram “com amor e compaixão” no tratamento de “tantas feridas físicas e morais daqueles que, em todas as noites, vivem o medo das trevas, da solidão e da indiferença”.

Na 4ª Estação, em que Cristo encontra a sua mãe Maria, a religiosa italiana recorda “muitas mães que deixaram partir suas filhas jovens para a Europa, na esperança de ajudar as suas famílias em extrema pobreza, enquanto encontraram humilhações, desprezo e por vezes também a morte”.

“Infelizmente, muitas vezes hoje já não conseguimos perceber quem são aqueles que estão em situação de necessidade, nem ver quem está ferido e humilhado. Muitas vezes reivindicamos os nossos direitos e interesses, mas esquecemos os direitos dos pobres e daqueles que estão no último lugar da fila”, frisa a irmã Eugenia Bonetti.

Para a religiosa, é essencial que hoje a sociedade tenha a capacidade de “pedir a Deus para a ajude a amar” os mais fracos e oprimidos, “e a não ser insensível ao choro, aos sofrimentos e aos gritos de dor dos outros”.

Durante esta Sexta-Feira Santa, as comunidades católicas de todo o mundo vão também ser desafiadas a interceder pelos mais novos que “não podem ir à escola”, que são atirados desde tenra idade para o trabalho forçado “nas minas, nos campos, na pesca”, para as crianças que são “vendidas e compradas por traficantes de carne humana, para transplante de órgãos, assim como usadas e exploradas… por muitos, inclusive cristãos”, realça a religiosa.

Na 8ª Estação, que corresponde à passagem em que Jesus se encontra com as mulheres de Jerusalém, é destacado que “todos se devem sentir responsáveis por este problema” do tráfico humano e que a sociedade deve ter a “coragem” de denunciar esta problemática, cada vez mais presente devido à crise migratória.

O culminar de toda esta reflexão é na 14ª Estação, a contemplação do sepulcro de Jesus, que para a irmã Eugenia Bonetti deve remeter para os “novos cemitérios de hoje”, como “o deserto e os mares” onde sucumbem tantos homens e mulheres migrantes, deslocados ou refugiados, que procuram chegar a uma vida melhor, na Europa ou em outros continentes.

“Enquanto os governos discutem, fechados nos palácios do poder, o Saara enche-se de esqueletos de pessoas que não resistiram à fadiga, à fome, à sede, e o mar transformou-se em um túmulo de água”, frisa a religiosa responsável pelas meditações deste ano da Via-Sacra no Coliseu de Roma, esta Sexta-Feira Santa.

A cerimónia vai terminar com uma provocação – “que a morte de Cristo possa dar aos líderes das nações e aos responsáveis legislativos, a consciência do seu papel em defesa de cada pessoa” e que “a ressurreição de Cristo seja um farol de esperança, de alegria, de vida nova, de fraternidade, de acolhimento e de comunhão entre povos, as religiões e as leis”.

Todos os anos, o Papa pede a um autor diferente a redação dos textos de reflexão apresentados nas estações da Via Sacra de Sexta-feira Santa, seguida por dezenas de milhares de peregrinos, com velas na mão.

Em 2018, as meditações foram escritas por um grupo de jovens estudantes de Roma; no atual pontificado, as meditações tinham também sido confiadas ao cardeal Béchara Boutros Raï, patriarca de Antioquia dos maronitas (Líbano), com a colaboração de vários jovens do seu país (2013); ao arcebispo italiano D. Giancarlo Maria Bregantini (2014); ao bispo italiano D. Renato Corti, antigo responsável pela diocese de Novara (2015); ao cardeal Gualtiero Bassetti, da diocese italiana de Perugia (2016); e à biblista francesa Anne-Marie Pelletier (2017).

Quanto ao tema do tráfico humano, o Papa Francisco aprofundou esta matéria em 2015, na sua Mensagem anual para o Dia Mundial da Paz.

“Estamos perante um fenómeno mundial que excede as competências de uma única comunidade ou nação” e, por conseguinte, “é preciso uma mobilização de dimensões comparáveis às do próprio fenómeno”, salientou na altura o Papa argentino.