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Venezuela: lusodescendentes procuram recomeço em Estarreja

Desde o início do ano, cerca de 400 venezuelanos cruzaram o oceano, para tentar escapar da crise socioeconómica que se vive no país, e tentar a sorte em Estarreja, invertendo o êxodo que se iniciou na década de 1940.

A maior parte dos que aqui chegam são lusodescendentes, netos e bisnetos desses portugueses que emigraram para a Venezuela, mas também há venezuelanos que tentam refazer a vida nesta zona do distrito de Aveiro.

Ainda em busca de uma colocação no mercado de trabalho, a administradora comercial Francys Capella de Faria, de 40 anos, deixou a Venezuela há cerca de um mês. Veio com o marido, português, e dois filhos de cinco e nove anos. Para trás, deixou um filho de 21 anos que está a terminar o curso de Medicina e que deverá juntar-se aos seus pais assim que terminar os estudos.

“Nós decidimos viajar para Portugal, porque a Venezuela está numa situação totalmente difícil e o acesso à saúde, trabalho e qualidade de vida está muito limitado. Dá tristeza, porque a Venezuela é um país muito lindo e rico em recursos minerais. Ou seja, tem muitas virtudes e capacidades para não estar na situação em que está”, disse num tom de voz entristecido.

Francys e o marido tiveram de vender tudo o que possuíam, incluindo a casa e o carro, para poderem comprar as passagens de avião. O resto que conseguiram juntar meteram numa mala e trouxeram no avião.

“É praticamente uma vida de cada um numa mala, porque só era permitida uma mala por passageiro”, disse emocionada e com as lágrimas nos olhos.

À parte de um casal de amigos, que os ajudou a alugar um apartamento e a arranjar emprego para o marido, não conhecem mais ninguém, mas rapidamente encontraram ajuda na Associação Empresarial de Sever do Vouga, Estarreja, Murtosa e Albergaria (SEMA), que tem sido uma espécie de porto de abrigo, para os venezuelanos.

“Alguns têm cá familiares, ou alguém conhecido que os acolhe, mas há muitos que não têm ninguém. Principalmente os que são exclusivamente venezuelanos e que têm muita dificuldade na língua e nos contactos”, disse o presidente da SEMA, José Valente.

O trabalho da associação tem isso fundamental não só para regularizar a situação dos imigrantes, mas também para os ajudar a encontrar residência e trabalho, explicou José Valente.

“A colocação no mercado de trabalho tem sido fácil devido à falta de mão de obra que existe no concelho e não só. Já fomos contactados pela Salvador Caetano, de Vila Nova de Gaia, e até da Renova, de Torres Novas, a pedir para mandar pessoas para lá”, observou o dirigente da SEMA.

A quantidade de venezuelanos que tem procurado a associação aumentou tanto que tiveram de definir um dia por semana (segunda-feira) para o atendimento destas pessoas.

“Penso que seja um dever nosso ajudá-los, porque os nossos pais e as primeiras gerações de portugueses que foram para a Venezuela também tiveram ajuda lá”, disse Crispim Rodrigues, um funcionário da SEMA que esteve cerca de 40 anos na Venezuela e que tem acompanhado pessoalmente estes casos.

Dos cerca de 400 venezuelanos que passaram pela associação, 80% já estão a trabalhar e os restantes 20% estão a tratar da documentação, como é o caso de Francys.

Já tem número de contribuinte e da Segurança Social, mas ainda lhe falta a autorização da residência, para completar o processo de legalização. Na delegação de Aveiro do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) só tinha marcação para daqui a quatro meses, mas, entretanto, conseguiu uma entrevista para 4 de dezembro, no SEF de Vila Real.

Crispim Rodrigues diz que esta tem sido a parte mais difícil no processo de regularização dos venezuelanos, porque o SEF não tem pessoal suficiente para dar resposta a esta vaga de pessoas que está a chegar da Venezuela.

“Eles vêm com um visto de turismo. É preciso arranjar o mais depressa possível uma entrevista no SEF para legalizar a estadia cá e isso demora em média entre dois meses e meio e três meses”, observou.

Também à espera de uma entrevista no SEF está Assad Bujana que aterrou em Portugal há cerca de três semanas, acompanhado da esposa, Liliane Duarte, filha de portugueses, e dos seus três filhos de dois, oito e 11 anos.

Os dois são licenciados em Geografia, mas aceitam qualquer trabalho que apareça. Na Venezuela, tinham uma empresa que fazia a ligação entre os pequenos produtores e os supermercados, mas desde novembro do ano passado que já não tinham trabalho e estava a ser cada vez mais difícil manter os filhos.

“O meu filho mais pequeno só tem duas ou três vacinas, porque não há vacinas. Não há antibióticos. As garotas às vezes não tinham escola porque não havia luz, nem água. As condições eram realmente complicadas”, afirmou Liliane Duarte.

A falta de segurança foi outro dos motivos que os levou a abandonar o país. “Num ano fomos assaltados três vezes. Na Venezuela já não há sítios seguros. Em qualquer lado podes encontrar a morte. É a lei da selva. As pessoas estão a lutar pela vida delas”, conta Assad Bujana.

Manuel Batista emigrou para a Venezuela com o objetivo de ganhar dinheiro para construir uma casa. Esteve lá 31 anos e regressou a Portugal há 24, para abrir uma padaria em Ovar. Agora está a ajudar a trazer os filhos, os netos e os bisnetos.

“Nestes quatro meses já cá estão 11. Em dezembro vão chegar mais cinco e ainda lá vão ficar quatro netos, mas não podem vir todos de uma vez, porque as passagens são muito caras”, lamentou.

Apesar do futuro incerto em Portugal, Liliane diz que não quer regressar à Venezuela. “Aquilo tem mudado muito, não só o país, mas também as pessoas. Eu já não conheço a Venezuela onde cresci. Espero poder adaptar-me aqui. Vejo que os meus filhos agora estão bem na escola, com tantas coisas positivas e por eles, eu acho que não vamos voltar”, diz.

Já Francys espera regressar um dia ao seu país de origem, mas, por agora, mostra-se grata pelo acolhimento “de braços abertos” que receberam dos portugueses. “Queremos contribuir muito para este país, porque somos pessoas boas e trabalhadoras”, disse.