
Faz dia 28 de Junho, quarenta anos que fui convidado para ir para padre.
Era quinta-feira, tarde idêntica a esta, mas a cidade – vila, então, sem o bulício de hoje (este ano, em especial) porque o São Pedro estava centrado no Monte de Santa Quitéria.
Nesse dia havia terminado o ano lectivo do Ciclo Preparatório – em Felgueiras, um dia mais cedo porque na sexta-feira era o nosso feriado municipal.
A sala de emoções foi no jardim público e junto ao lago. Sentados nalguns bancos, todos lixados, uns para cada lado, a prometermo-nos reencontrarmo-nos. Houve despedidas e nostalgia próprias de quem vê partir para cada lado a maioria dos colegas de dois anos de Preparatório. Mas poucos nos reencontrámos.
A indefinição de tudo.
Depunha-se, – mas não conseguiríamos supor, imaginar, – um futuro pela frente.
Hui, meu Deus! Foi ontem. Mas faz já quarenta anos.
O meu todo e tão saudoso pai havia perecido havia menos de dois anos, na véspera do último dia do primeiro período.
As intenções das missas eram quinzenalmente. Por hábito eu ia com a minha mãe, no final da tarde.
À minha mãe chegara dias antes a informação de que o senhor padre Rodrigo queria falar com a minha mãe, e consequentemente comigo. A mãe, ainda que num contexto difícil de perceber, lá supôs que eu aprontara alguma pela vila. – Estamos em setenta e nove. O padre ainda era uma figura mítica sobretudo para as famílias tradicionais – crentes, fortemente crentes, como era a minha família.
Eu tranquilo porque nada fizera de suspeito, pelo menos no que tocasse ao padre.
No final da missa a minha mãe mais eu, dirigimo-nos à sacristia, para proceder ao estipêndio.
A mãe verbera ao senhor padre que nos queria falar. Diz-nos que fôssemos andando para a residência paroquial onde ele ia ter connosco assim que tirasse os paramentos.
O padre Rodrigo conduz-nos ao seu gabinete.
Dirige-se a mim: Tu não queres ir para padre?
As coisas seriam periclitantes. Fosse para o que fosse que o fâmulo tivesse para nos falar, seria dirigido à minha mãe.
Mas não.
Se não fosse interessante hoje recordar-me-ia rigorosamente tudo – além da minha memória visual.
Mas sei – jamais esqueci – que me explica que havia dois tipos de padres. Exemplifica-me: “assim como eu”, diocesano ou religioso regular, “que não ganha tanto como eu”.
O alívio da mãe, quanto à minha hipotética malandrice, estava assente. O alvoroço foi honorável.
Ao tempo ter um filho padre, alto lá!!!
Eu mais o senhor padre trocámos o que era para trocar. Mas unanimamente estabelecemos que íamos pensar. Até hoje.
Ao voltarmos a casa, à porta estava a minha irmã a namorar com aquele que é meu compadre. Daquele consórcio nasceria um ano mais a filha a quem eu viria transmitir o sacramento baptismal.
Damos a nova à minha irmã que prontamente diz: Vai ‘Dão! Eu ofereço-te o enxoval.
Mais tarde, nas reuniões preparativas para o baptismo, o pároco, pese o facto de eu ser adolescente e por isso bem mais novo de todos os que iam testemunhar um número vário de baptismos, era aquele que menos fui envolvido nas prelações.
Mais tarde ainda abordei o senhor padre Rodrigo acerca do que o levara a fazer-me o alvitre: “que já se não lembrava”. Eu reinvesti anos ainda mais tarde. O senhor padre tinha memória mais expressiva, mas não concludente.
***
Tive sempre a ideia de que fora porque todas as manhãs de Domingo me via religiosamente junto à porta norte da capela-mor entre o ferro esconso que a reforçava, e nesta porta sacramentalmente ali estava eu sempre sozinho. A rapaziada ficava perto do grupo coral, especialmente junto do órgão – que eu desejava eternamente saber tocar.
Assistia eu realmente no canto esquinado da porta. Atento. Lembro-me disso. Atento. Atentíssimo.
Percebia eu toda a prática da missa e absorvia tudo o que nela se passava, – tudo o que nela era dito.
Creio, queria já ao tempo, que percebia – me tocava – mais que à maioria dos adultos.
Resultado: Penso, sempre pensei, que o senhor padre Rodrigo, do altar me observava, observava a minha postura naquele canto.
E daquele canto, por trás me não viam – aqueles que estavam no corpo principal da igreja, abaixo da linda grade (…) que dividia a capela-mor da igreja toda. Nem me distraía para trás.
***
Fiquei atrás duma carreira de padre. O padre que ao longo da vida, intui que fiz mal não abraçar.
Faria do sacerdócio uma profissão. As paroquianas mais maviosas se me abeiravam e eu faria uma vida normal, desde que ao outro dia, pela manhã, pudesse apresentar-me a dizer a missa. – Na missa onde empregaria o meu cinzel, imprimindo melhor clareza, aos recalcitrantes – “os insondáveis desígnios de Deus”. Encadeava-os sem muitas ondas para não destoar muito da doutrina.
Peregrino.
(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico)
