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Um suicídio em cada 40 segundos no mundo

A morte do actor Pedro Lima coloca na ordem do dia o tema do suicídio, pois é um flagelo mundial, essencialmente como resultado de depressões não tratadas e dores físicas e emocionais dramaticamente atrozes e angustiantes, fruto das circunstâncias do que a vida nos dá.

Há 20 anos que trabalho como psicólogo clínico e psicoterapeuta, sendo a depressão a minha especialidade desde cedo , tendo feito, quer os meus trabalhos de investigação clínica de tese de licenciatura no Hospital Magalhães Lemos no Porto (1999), 2 anos de mestrado (2001-2003) e 6 anos de doutoramento (2004-2010), todos dedicados à Depressão.

Para além disso, sei, em causa própria, o que é ter uma dor excruciante crónica desde 2006 – nevralgia do trigémeo e glossofaríngeo (uma das piores dores do mundo conhecidas). Sei bem, também por isso, para além do que a ciência na minha área profissional evidencia, e até como exemplo desse modelo científico, do que significa o sofrimento recorrente atroz dos piores momentos em que não vemos saída e o mundo é negro. Mas há sempre saída e essa lógica axiomática que sustenta a narrativa das crenças conscientes do pensamento, que condiciona as emoções é e fortalece os comportamentos algo que só se aprende com um processo psicoterapêutico com tempo, dedicado e consistente para ser eficaz.

Nestes 20 anos de actividade diária, com mais de 22 mil sessões individuais realizadas, lidando com uma realidade tão dramática como a depressão em tanta gente de todo o tipo, onde nos casos graves, a prevenção do suicídio foi o meu maior desafio enquanto psicólogo clínico, não posso deixar de abordar a perda do actor Pedro Lima, que coloca na ordem do dia este tema.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), em dados de 2016, estima que todos os anos se suicidem 800 mil pessoas — o que dá uma pessoa a cada 40 segundos.

As mortes por suicídio (800.000) são praticamente o dobro das mortes por COVID (465.000), apesar de serem realidades clínicas muito diferentes. Mas os números são sempre úteis para vermos e percebermos a proporção real do impacto da doença mental.

Podemos encontrar o suicídio como uma das 20 principais causas de morte em todo o mundo — sendo a segunda causa de morte para os jovens (dos 15 aos 29 anos) —, provocando mais mortes que a malária, o cancro da mama ou mesmo as guerras e homicídios.

Em Portugal, segundo a Direção-Geral da Saúde, com base nas tabelas oficiais do Instituto Nacional de Estatística, que indicam uma taxa de 10.3 por 100 mil habitantes, o que é um número de mortes desnecessárias, caso consigamos ter o tratamento ou acompanhamento clínico adequado na maioria dos casos, principalmente se houvesse um combate eficaz na luta contra o estigma social contra a doença mental.

Tudo o que fazemos, em qualquer área, a qualquer momento e com quem quer que seja, é condicionado pelo que pensamos e sentimos, pelo que os comportamentos são a expressão real desse mundo. O mundo pula e avança por essa trilogia de pensamentos, emoções e comportamentos. Não perceber que é a saúde mental que nos define, só facilita uma sociedade mais frágil e insegura, onde cada um não se vê como suficiente para cuidar de si próprio e assumir que vale a pena aprender a lidar com o sofrimento que a vida acarreta e com os problemas para os ultrapassar.

Concordando com as recomendações da OMS e acrescentando a minha opinião:

1) é preciso criar programas para os mais jovens, desde as escolas primárias, para aprenderem a pensar por si (sem ser apenas em modelos hierárquicos, mas também de negociação);
2) é preciso criar programas para esses jovens aprendam a lidar com situações de stress (pois é o que a vida também dá recorrentemente);
3) é preciso identificar e acompanhar as pessoas em risco de suicídio com intervenções psicoterapêuticas validadas cientificamente (como por exemplo o modelo de Psicoterapia Interpessoal que fiz especialização completa e dou formação a psicólogos e médicos psiquiatras desde 2009);

4) é preciso dar educação aos media para fazerem reportagens mais competentes e responsáveis sobre o problema (e não apenas para emocionar e explorar a “pena” social para ganho de audiência, sem eficácia na responsabilização de cada um para ajudar todos).

Objectivos desta natureza obriga a muito trabalho para definir processos e estrutura de execução, pelo que tempo e competência são duas variáveis fundamentais para que se desenvolvam programas eficazes.

Muito tem sido feito por nós, profissionais de saúde mental, quer no público quer no privado, e temos melhorado constantemente os modelos de intervenção (entre psicólogos clínicos e médicos psiquiatras, com psicoterapia e psicofarmacologia).

Contudo, só com o apoio dos media e de medidas governativas que facilitem a implementação de modelos práticos adaptados às vidas reais e não apenas académicos, é que conseguirmos causar impacto real.

A ciência deverá sempre acrescentar valor à Pessoa e a servir melhor a população.

Só assim é que um deprimido ou suicida, perceberá que o suicídio será sempre um caminho definitivo, para um problema ou fase temporária. Portanto, o suicídio não é, nunca, a melhor saída.

Ivandro Soares Monteiro
Psicólogo Clínico | Psicoterapeuta | Executive Coach
Director-Geral da EME SAÚDE
www.drivandro.comwww.emesaude.pt
Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.