De que está à procura ?

Lisboa
Porto
Faro
Colunistas

Um homem obstinado

Pouco antes de sua morte, em 11 de novembro de 1998, exatamente um mês antes de completar um século de existência, ouvi de meu avô paterno, Angelo Pio Mendes Corrêa, uma frase muito marcante que meu deu a dimensão de seu amor à vida: “Nasci no século XIX, estou vendo o século XX terminar e, atravessando o milênio, serei um homem de três séculos e dois milênios.”

Nascido a 11 de novembro de 1898, numa São Paulo ainda bastante provinciana, na casa de seu primo João Mendes de Almeida, jurista, político e líder abolicionista, ao lado da Igreja de São Gonçalo, atual Praça João Mendes, foram seus pais Manuel Pio Corrêa e Maria do Céu Mendes de Almeida Telles Corrêa. O pai, um dos mais destacados botânicos de nosso país, autor, dentre mais de uma centena de trabalhos científicos, do Dicionário das Plantas Úteis do Brasil e das Exóticas Cultivadas.

Ainda jovem, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde cursou direito e atuou como jornalista e produtor teatral, convivendo com figuras que se transformaram em legendas de nossa história, tais como o jurista Rui Barbosa, o escritor Lima Barreto, os atores Leopoldo Fróes e Procópio Ferreira e a maestrina Chiquinha Gonzaga, ao lado de quem, aliás, foi um dos fundadores da SBAT (Sociedade Brasileira de Autores Teatrais).

Em 1924, de volta a São Paulo, participou ativamente do Movimento Tenentista, sendo nomeado major pelo general Isidoro Dias Lopes. Às vésperas da revolução de 30, esteve com João Alberto e Siqueira Campos, em Buenos Aires, para convidar Luís Carlos Prestes, lá exilado, a integrar o estado-maior das forças revolucionárias. Prestes, no entanto, recusou o convite, por entender tratar-se de uma revolução burguesa, frisando que já aderira ao comunismo.

Na cidade de Itu, em 1930, fundou o jornal Acção Liberal, ligado ao Partido Democrático de São Paulo, importante órgão de propagação das idéias revolucionárias daquele período.

Vitoriosa a revolução, foi nomeado por João Alberto, que assumiu o Governo de São Paulo, Secretário de Segurança Pública. A seguir, assumiu o cargo de prefeito de Taquaritinga, no interior de São Paulo.

Advogado militante por mais de seis décadas, ocupou também a direção geral da Secretaria da Fazenda de São Paulo, onde criou, nos anos 1960, o Talão da Fortuna, campanha de vulto que  visava combater a sonegação de impostos no estado.

Leitor contumaz, foi um apaixonado pelo universo dos livros, seguindo a tradição do avô paterno, Ignacio Miguel Corrêa, editor e livreiro no Porto, no século XIX.

Conhecia como poucos a história das duas grandes guerras do século XX, a cultura greco-latina e a obra de Eça de Queirós, escritor de sua máxima devoção.

Sobre o autor do artigo: Angelo Mendes Corrêa é doutorando em Arte e Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista.                                                                                                                                                        

 

 

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.