Trump e a Gronelândia: A perspetiva de uma portuguesa a viver na Dinamarca
As recentes declarações do Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, sobre a importância estratégica da Gronelândia para a segurança nacional norte-americana continuam a gerar reações e preocupação no espaço europeu, em particular na Dinamarca. No entanto, entre a comunidade portuguesa residente no país, o sentimento dominante parece ser de atenção, mas não de alarme.
Em declarações ao BOM DIA, Cláudia Vale da Silva, 37 anos, residente na Dinamarca há 11 anos, considera que as afirmações de Trump devem ser enquadradas no seu estilo político habitual. “O Trump vive de exageros mediáticos e das redes sociais, com um estilo provocador que já todos conhecemos”, afirma, sublinhando ainda assim que existe “um interesse real dos Estados Unidos no Ártico (recursos, rotas marítimas)”.
Apesar disso, a portuguesa considera pouco provável uma eventual ‘invasão’ à Gronelândia tal como aconteceu com a Venezuela, até porque se trataria de um ataque a um aliado da NATO. Uma ação desse tipo não poderia ser feita “unilateralmente, sem o apoio do Congresso, do Pentágono e uma justificação legal internacional. As forças armadas norte-americanas, à partida, não seguem ordens manifestamente ilegais”.

Na sua análise, uma intervenção militar teria custos demasiado elevados. “Uma invasão teria um custo diplomático gigantesco, colapso das relações EUA–Europa, impacto económico severo e nenhum ganho estratégico que não possa ser obtido por acordos militares, tratados económicos e a presença militar que já existe dos EUA já na Gronelândia (tal como temos a base das Lajes nos Açores)”, acrescenta.
Postura firme da Dinamarca
Questionada sobre a resposta da primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, Cláudia Vale da Silva considera que a líder do Governo tem adotado uma postura “bastante assertiva, mas humilde e alinhada com os valores da NATO e de cooperação – mas com limites”. A portuguesa considera que Mette “tem transmitido uma rejeição clara e firme das “ameaças” ou tentativas de anexação”. A entrevistada recorda ainda que primeira-ministra dinamarquesa “disse que as declarações dos EUA devem ser levadas seriamente, mesmo que ela não acredite que uma invasão vá acontecer”.
Cláudia Vale da Silva destaca ainda o apoio explícito à autodeterminação da Gronelândia, território autónomo desde 1979, embora a defesa e a política externa continuem sob responsabilidade dinamarquesa.
No que diz respeito ao impacto junto da comunidade portuguesa na Dinamarca, a entrevistada garante não sentir um clima de medo generalizado. “Sinceramente não noto nenhuma preocupação especial da comunidade portuguesa na Dinamarca, para além do receio natural como cidadão Europeu.”, afirma. “Se algo se vier a concretizar a Europa toda sofrerá igualmente com o fim da NATO, que é basicamente o que isso significa”, acrescenta.

Enquanto emigrante, admite estar “particularmente atenta a este tema”, sobretudo devido à imprevisibilidade de Trump e aos acontecimentos recentes na Venezuela. Ainda assim, diz que a perceção local é de tranquilidade: “Os meus amigos, colegas e vizinhos dinamarqueses parecem bastante descontraídos e confiantes”. “Quando se pensa mais a fundo e se conversa mais exaustivamente sobre esse tema parece-me improvável”, conclui.
Estratégica no Ártico e rica em recursos minerais, a Gronelândia conta com cerca de 50 mil habitantes e assume um papel crescente no xadrez geopolítico internacional, num contexto em que as declarações de Trump continuam a ser acompanhadas com atenção tanto na Europa como na comunidade internacional.

Recorde-se que, no passado sábado, Maduro e a mulher foram capturados pelos EUA. Além disso, nos últimos dias, o presidente dos EUA voltou a referir a importância da Gronelândia: “Precisamos da Gronelândia da perspetiva da segurança nacional. É muito estratégica. Neste momento, a Gronelândia tem navios russos e chineses por todo o lado. Precisamos da Gronelândia da perspetiva da segurança nacional, e a Dinamarca não vai dar conta do recado, garanto-vos”. Mette Frederiksen, primeira-ministra da Dinamarca reagiu: “Em primeiro lugar, penso que o Presidente americano deve ser levado a sério quando diz que quer a Gronelândia. Mas também quero deixar claro que se os EUA decidirem atacar militarmente outro país da NATO, então tudo acaba. Isto é, inclusive a nossa NATO e, portanto, a segurança que nos tem sido proporcionada desde o fim da Segunda Guerra Mundial”.
Texto: Fabiana Bravo