
A incessante busca por um mundo melhor, numa visão recorrentemente utópica e inspiradora de justo e equilibrado, com plena igualdade de oportunidades e mais saúde e bem-estar, sempre foi e continua a ser o leitmotiv da investigação e desenvolvimento global (científico, tecnológico, económico e social). Daí que possamos constatar a sociedade actual como a melhor de sempre, em comparação com a que alguma vez antes existiu.
Naturalmente que, nesse desenvolvimento global está incluída a saúde, o bem mais precioso da natureza humana, tanto física como mental. E a presente pandemia, que teima em não nos deixar, tornou ainda mais evidente a importância da saúde mental, amplamente difundida pelos órgãos da comunicação social e tão pessoalmente sentida em cada um de nós.
De facto, a pandemia Covid19, para além dos graves estragos na vida económica e social, tem causado enorme impacto na saúde e bem-estar emocional, dada a dimensão dos problemas que se precipitaram na sociedade. Por isso, as preocupações são mais que muitas em todas as faixas etárias e classes sociais, tendo em conta os sintomas de ansiedade e depressão que geram uma sensação de mal-estar e inquietação permanente, com imprevisibilidade do futuro.
Apesar disso, dado o impacto negativo significativo directo e indirecto da pandemia na saúde mental, constata-se que apenas uma minoria da sociedade recorre à ajuda clínica, não obstante haver muita gente que sente tal necessidade, mas não a procura, o que, desta feita, acrescenta outras preocupações às já existentes.
Claro que faltam recursos evidentes na estrutura social (que sempre faltaram), quer ao nível do acesso aos cuidados de saúde, quer ao nível de recursos dos serviços públicos junto da população. Mas entre os factores que também dificultam a velocidade com que estas necessidades se resolvem, encontramos o estigma da doença mental, um preconceito que acaba por isolar a pessoa na relação com os demais, como se o seu passado bloqueasse o seu futuro, causando-lhe sofrimento e rigidez funcional no presente.
Com efeito, a doença mental prejudica as relações sociais em função da sua divulgação por alguém que mostrou a sua vulnerabilidade e, daí, resultar uma discriminação que pode agravar ainda mais o seu quadro clínico.
O estigma social da doença mental torna-se evidente quando alguém, por exemplo, não revela estar a chorar com frequência e tem insónias com medo do futuro por causa da pandemia. Outro exemplo é quando alguém não revela algum seu episódio anterior de depressão ou ansiedade em entrevistas de emprego ou relações de namoro, ou então toma medicamentos às escondidas ou justifica faltas ao trabalho com desculpas várias, tais como, cuidar de familiares ou pedir férias, quando, na verdade, essas faltas destinam-se a tratar a sua doença mental.
Os mainstream media podem e devem contribuir para a erradicação do estigma da doença mental com a crescente publicação de programas, entrevistas e reportagens sobre esta temática, por especialistas e cientistas desta área e, assim, ajudarem na divulgação da literacia emocional, atinente à educação do grande público. Tudo com muita prudência para que se evite a difusão de conceitos errados e/ou negativos, o que iria reforçar o estigma, em larga escala.
A mudança social começa na responsabilidade individual, em cada um de nós, através da consciência e assunção de que temos de cuidar de nós como alguém que temos de ajudar.
Durante a vida, todos nós passamos por fases complicadas de perdas, conflitos e transições, que nos causam sofrimento e aumentam as vulnerabilidades. A capacidade em aceitar tais dificuldades como parte da vida, podendo recorrer a ajuda psicológica sempre que estes episódios acontecem e sentimos necessidade de lhes dar um sentido, acabará sempre por reduzir o estigma da doença mental na sociedade. Para além disso, melhorar a capacidade de interacção e julgamento social é fundamental, pois cada um de nós deverá ser percebido pelo percurso de vida e méritos alcançados, pelo que hoje somos, e não pelo passado, pelas doenças tidas ou experiências isoladas.
Todos podemos ser mais do que fomos.
Condenar uma vida permanente por causa de uma fase temporária é sempre estigmatizar uma pessoa. Ademais, sempre que a doença é tratada, voltamos ao equilíbrio, pois, a natureza humana tende sempre para um funcionamento basal saudável.
A pandemia e o sofrimento causado não nos pode definir, mas antes pode ser aceite como uma realidade inevitável que nos aumenta a consciência sobre o que realmente temos e o que podemos fazer com o que temos, sabemos e fazemos.
Por último, importa lembrar que são os problemas que, quanto mais aprendemos a enfrentá-los, nos criam resiliência em vez de vulnerabilidades. Assim sendo, quem procura ajuda clínica na doença mental e usa a sua experiência para servir de inspiração à sua rede social, acaba por ser alguém sempre mais maduro e capaz. A ciência psicológica ajuda-nos sempre a identificar uma melhor versão de nós, mais competente e eficaz para uma adequada inserção social, enquanto agente produtivo, autoconfiante e capaz de desenvolver o seu potencial.
Há que sermos mais iguais a nós próprios, pois, quem for verdadeiro de dentro para fora, mostra quem é e o que é, ou seja, a sua genuidade.
Mudamos pelo que fazemos.
Ivandro Soares Monteiro, Prof Doutor
Psicólogo Clínico / Psicoterapeuta / Executive Coach
Fundador & Director da EME Saúde
www.drivandro.com – drivandro@drivandro.com
