Teresa Marcos: Como uma portuguesa se tornou voz ativa na política dos Países Baixos
Há uma portuguesa que voltou a destacar-se na política local dos Países Baixos após as eleições municipais realizadas a 18 de março. Teresa M. da Silva Marcos é formada em design e foi reeleita deputada municipal em Velsen pelo partido D66, consolidando um percurso político já com vários anos e marcado pelo envolvimento cívico e pela defesa da participação de cidadãos estrangeiros na vida pública neerlandesa.
O BOM DIA conversou com a deputada (portuguesa de nascimento e neerlandesa por casamento) que é considerada uma das vozes pioneiras na participação política de cidadãos portugueses naquele município.
Um percurso entre Portugal e os Países Baixos
Nascida em Portugal, Teresa Marcos vive há décadas nos Países Baixos, país onde construiu a sua vida pessoal e profissional. A história de Teresa Marcos entrelaça dois países e várias fases de vida. Tudo começou há mais de 40 anos, quando conheceu o seu marido, um estudante holandês que esteve em Portugal.
A relação evoluiu rapidamente e, com ela, uma vida entre mudanças constantes entre Portugal e os Países Baixos. Houve períodos de permanência em ambos os países, estudos, o nascimento dos filhos e sucessivos regressos. Tudo isto não estava nos planos de Teresa. “Eu digo muitas vezes que nós podemos ter os planos que quisermos, mas a vida não é possível planear”, refere.
A mudança mais definitiva para os Países Baixos aconteceu em 1999, quando a família decidiu fixar-se devido a questões profissionais e de estabilidade.
Da experiência pessoal ao compromisso político
O interesse pela política nasceu cedo, influenciado pelo contexto da sua infância em Portugal e pela transição democrática após o 25 de Abril. “Eu tinha 11 anos quando foi o 25 de Abril. Eu vi a evolução, a transformação de uma ditadura para uma democracia”, recorda. Também o ambiente familiar teve influência direta: o pai foi deputado municipal em Sintra e sempre esteve ligado à vida associativa e cívica.
Já nos Países Baixos, o envolvimento começou de forma gradual, através de associações de pais e estruturas locais. “Achei importante que as pessoas não só decidissem por mim, mas que eu também pudesse decidir”. Esse percurso levou-a naturalmente à política local, que define como uma extensão da vida em comunidade.
Política como responsabilidade coletiva
Hoje deputada municipal em Velsen, Teresa sublinha a dimensão de serviço público da função. Na sua perspetiva, a política deve ser entendida como um serviço público e uma forma de representação direta dos cidadãos. “Para mim, a política nunca foi um jogo. A política é parte da nossa vida”, defende.
A recente reeleição foi recebida com satisfação, mas também com sentido de responsabilidade acrescido. “Por um lado, fico muito feliz por poder por mais quatro anos desempenhar esta função. Por outro lado, implica ter uma grande responsabilidade”, assume.
Nas eleições locais neerlandesas, o voto tem também uma componente pessoal forte, o que reforça a ligação direta entre eleitos e eleitores.

Um mandato marcado por geopolítica local e cultura
No município de Velsen, Teresa Marcos destaca áreas como a geopolítica local, influenciada pela presença de infraestruturas estratégicas como o porto marítimo, o canal e a indústria do aço, setores fortemente ligados à economia regional e europeia.
A deputada defende a cooperação entre países como fator de desenvolvimento: “Se nós não nos unimos, os Estados Unidos também é uma federação. Nós ainda não somos uma federação, mas…”. E acrescenta uma visão mais ampla sobre a convivência entre culturas: “Há um ditado aqui na Holanda que diz: Se caminhas sozinho, vais mais rápido, mas se caminhas com um grupo, chegas mais longe”.
Outro dos seus domínios de intervenção é a cultura, onde tem promovido projetos de participação comunitária com forte componente criativa. Um dos exemplos mais emblemáticos foi a criação de um coletivo de poetas locais (“poetas da cidade)”. O projeto evoluiu para uma iniciativa mais ampla, envolvendo biblioteca, artistas locais e culminando na criação de um livro com poemas inspirados em obras de arte no espaço público, acompanhado de uma rota cultural pelo município. Teresa assina o prefácio.

Mulheres na política e participação cívica
Para além da atividade política, a deputada é voluntária na fundação ‘Stem op een vrouw’ (“Vota numa mulher”), uma organização dedicada ao incentivo do voto e da presença feminina em cargos políticos.
Segundo explica, a organização promove ações de mentoria e sensibilização, incentivando mulheres a entrarem na vida política e a compreenderem os mecanismos de candidatura e representação.
A comunidade portuguesa
Ao longo dos últimos anos, Teresa Marcos foi também recuperando a ligação à comunidade portuguesa nos Países Baixos, algo que durante muito tempo manteve mais distante. “Durante muitos anos não quis ter contacto com os portugueses, porque me custava. Deixava-me com saudades”.
Mais recentemente, esse contacto voltou a fazer parte da sua vida, através de associações, encontros e iniciativas de participação cívica. A deputada tem desenvolvido trabalho com a comunidade portuguesa nos Países Baixos, participando, por exemplo, em sessões de esclarecimento sobre cidadania e participação política.
Teresa acredita que a baixa participação tem uma causa principal: “Acho que é apenas uma questão de desinformação”. Mas também reconhece fatores como o ritmo de vida e as exigências laborais dos emigrantes. Apesar disso, defende que os cidadãos portugueses poderiam ter um papel mais ativo na vida política local. Considera que “trabalham no duro, são discretos e não levantam ondas” e acredita que está na altura de “fazerem ouvir a sua voz, participando mais ativamente na comunidade do país em que residem”.
A relação com a comunidade continua marcada por uma certa distância emocional e por hábitos que reconhece com humor e franqueza. “Os portugueses chegam sempre a todo o lado atrasados. É uma coisa que sempre me irritou, desde que eu era miúda.” Contudo, assume as saudades do mar, dos amigos e da descontração típica dos portugueses. E há um outro fio que nunca desapareceu: a ligação a Portugal e à forma como a vida entre dois países moldou quem é.
Texto: Fabiana Bravo