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Sobre a traição e a punhalada pelas costas no discurso de André Ventura

© Lusa

Segui com muita atenção a sessão solene comemorativa dos 52 anos da Revolução de Abril na Assembleia da República.

Gostei muito dos discursos dos deputados Rui Tavares e José Luís Carneiro assim como do Presidente da República António José Seguro.

Quero no entanto escrever algumas frases sobre o discurso do representante da extrema-direita num contexto histórico e social que é provavelmente desconhecido da maioria dos portugueses (a traição, a punhalada pelas costas).

Após a derrota alemã em 1918, os generais Paul von Hindenburg e Erich Ludendorff ajudaram a difundir o mito da “Dolchstoßlegende“ (“punhalada pelas costas”).

Segundo essa narrativa, o exército alemão não teria sido derrotado militarmente, mas sim traído por políticos civis, socialistas, republicanos e, frequentemente, minorias internas. Esse discurso teve uma função clara: deslocar a responsabilidade pela derrota, preservar a reputação das elites militares e deslegitimar a nascente República de Weimar. Ao criar um inimigo interno, a retórica alimentou ressentimento popular e contribuiu para a radicalização política na Alemanha.

Separado por mais de 100 anos de história europeia e mundial há no entanto um paralelo entre o discurso de André Ventura sobre a “punhalada nas costas” e a narrativa promovida por Paul von Hindenburg e Erich Ludendorff após a Primeira Guerra Mundial revela padrões retóricos semelhantes, ainda que inseridos em contextos históricos distintos.

No caso actual, o uso da expressão “punhalada nas costas” por André Ventura segue a lógica de construção de uma narrativa emocional mas falaciosa. Embora o contexto não seja uma derrota militar, a expressão serve para sugerir traição interna — geralmente atribuída a adversários políticos, elites ou instituições — em relação ao “povo” ou à “nação” (o 25 de Abril, a descolonização, o PREC, a Reforma Agrária, etc.). Trata-se de um recurso retórico poderoso, pois simplifica conflitos complexos em termos morais claros: legitimidade patriótica por um lado contra a traição aos valores da nação por outro.

A semelhança central entre os dois discursos está, portanto, na estratégia de mobilização política através da vitimização coletiva e da identificação de inimigos internos. Em ambos os casos, a linguagem emocional (“traição”, “punhalada”) substitui análises estruturais mais complexas, canalizando a frustração social para alvos políticos mais específicos.

Contudo, há diferenças abismais. O mito promovido pelos generais Hindenburg e Ludendorff surgiu num contexto de colapso estatal e teve consequências históricas profundas, contribuindo para a ascensão de Hitler e do movimento nazi (com o apoio encapotado ou aberto da direita conservadora e das elites endinheiradas). O discurso de André Ventura, sem nexo e completamente descontextualizado, ocorre num regime democrático consolidado, onde existem mecanismos institucionais de controlo e debate público mais robustos — infelizmente esses mecanismos não eliminam o potencial de polarização.

Alfredo Stoffel

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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