
Ouvimos a todo momento: “estou sem tempo”
ou “agora não, mais tarde talvez”.
Mas enquanto respiramos, o tempo, o tempo geral, ainda que impalpável, insosso, invisível e infindo, se coloca inteiramente à nossa disposição.
Ninguém “fica sem tempo”, sem este tempo nem mesmo por um segundo.
O seu tempo, o meu tempo, o tempo de cada um, com o qual deliberadamente ou inconscientemente nos enganamos, imagine-o como um tempo personalizado, apêndice fictício dos infinitos braços do tempo geral, o tempo que não podemos administrar.
O tempo como um todo não passa, não passa
e no entanto… tanta mudança nos olhos, nos corpos, nos corações…
O tempo não passa, mas quanta coisa passou,
quanta gente chegou e partiu, quanto encontro e quanta solidão, quanta alegria, quanto pavor, quanto amor e quanta dor, quantas guerras inúteis e destruição.
Quantas águas banharam o mundo e hoje tanta aridez.
E o tempo não passa mas nos observa e nos transforma, aprimora às vezes, outras deforma, e a gente somente percebe (quando percebe) já tarde, muito tarde, que poderia ter seguido outros caminhos, não ter guardado abraços e beijos, apertos de mão, não ter economizado sorrisos,
não ter ficado na insubstância do “sem tempo”, convenção que nos amputa os braços, as pernas, os olhos, a mente e o coração.
O tempo não passa, nunca, ainda que se ouçam ventos contrários, pois a contestação é permitida.
Não podemos culpá-lo pela nossa deterioração.
O que muda, faz nascer e sumir seres e coisas constantemente é algo maior, avesso ao tempo.
É teórico o seu registro no relógio, maquinário humano através do qual pautamos tudo, tudo, com base nos seus ponteiros, invento que nos faz crer que o controlamos, por falta de coisa melhor em que se acreditar acerca do tempo.
A vida é redemoinho de calmaria e de tufão, nos embala ao sol e nos atira na escuridão, um passar constante no sem-tempo da imensidão.
