
Ouvi, muitas vezes, meu pai dizer: que certa manhã, indo em direcção à Ribeira portuense, pela mão de sua mãe, ao atravessarem o tabuleiro inferior da ponte de D. Luís I, depararam, à saída do Porto, encostado à porta de ferro, que existe aberta no pilar de pedra, pobrezinho, que pedia esmola, por Amor de Deus.
Minha avó, que era muito caridosa, abriu a bolsinha de prata, e retirou dela um selo de correio, e deu-lhe de esmola, perante o espanto do filho, que na ocasião teria uns seis anos.
Sempre que escutava o episódio, e foram tantas vezes – os velhos gostam de contar e recontar factos passados, – custava-me acreditar que fosse possível: dar de esmola, um selo de correio!
Decorrido alguns anos, depois de ter concluído meus estudos liceais, vim a saber, que na Primeira Grande Guerra, a situação económica de Portugal, era tão desesperada, tão má, que nem moeda havia.
Então, Câmaras Municipais, assim como Juntas de Freguesia, Misericórdias… e até casas comerciais, resolveram emitir moeda, em papel, para comutar a falta de moeda, de valor quase sempre, entre: um e cinco centavos.
As emissões eram “ clandestinas”, mas as cédulas circulavam livremente, e aceites, como se dinheiro fosse.
Embora só a Casa da Moeda pudesse emitir dinheiro, a escassez era tanta, que os “obrigava” a imprimirem pequenos rectângulos de papel, a que davam determinado valor.
Algumas cédulas eram artisticamente trabalhadas, como se trata-se de dinheiro verdadeiro.
Em 1924, o governo tentou proibir a circulação das cédulas, mas só após a revolução de 28 de Maio, é que começaram a desaparecer definitivamente, com emissão, em massa, de moeda, de pequeno valor.


