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Reflexões do ano da pandemia

Sheffield, 13 de Abril do ano da pandemia

Depois de cerca de dezassete dias de isolamento estou de regresso a Leighton Buzzard, pequena cidade do condado de Bedfordshire, e a pouco mais de quarenta milhas do centro de Londres.

Entre o meu local de trabalho, na bonita cidade de Leighton Buzzard e a minha casa em Sheffield há uma distância de cerca de cento e cinquenta milhas, (240 km) razão mais do que suficiente para que tenha alugado um quarto onde possa pousar a cabeça, e porque o dinheiro que pago pelo aluguer do mesmo assim o permite, pousar o resto do corpo entre os dias que me separam dos fins de semana que ansiosamente espero até regressar à companhia dos meus amados, para um ainda que curto descanso de quinze em quinze dias, e que se esfuma num abrir e fechar de olhos.

Ora, no fim de semana que antecedeu o tal isolamento de dezassete dias, pedi, na companhia para quem trabalho, o dia de quinta e sexta feira pois iria acompanhar a minha amada de uma vida ao hospital onde ela seria submetida a uma operação. Operação essa que acabaria por ser adiada por mais seis meses devido aos perigos que a mesma representaria em termos de vulnerabilidade por causa do maldito vírus.

Na sexta feira recebi um telefonema do meu manager que entre desculpas esfarrapadas e explicações mal dadas me comunicou que pelo facto de eu ter entrado num hospital não poderia regressar ao trabalho durante 14 dias.
Ninguém sabe muito bem como lidar com uma situação que virou o mundo do avesso, enquanto que o cabrao do diabo se pôs a esfregar um olho.

Dada a corrente situação e tudo o que ela envolve, argumentar, discutir ou levantar ânimos desnecessários, não só não faz parte da minha maneira de ser, como também não será a melhor altura para o fazer, mesmo que ainda eu atentasse numa breve explicação de que a operação haveria sido adiada. Mas… ai meu Deus que ninguém sabe muito bem o que dizer ou fazer, quando os números de infetados e mortes nos envolve a todos numa espécie de bolha de medo e pânico em que ninguém está certo no que diz ou faz, mas também não está errado.

Por isso, voltas no dia 14 de Abril. Pois sim, muito bem, sendo assim, stay safe, stay well e vemo-nos no dia 14 de abril. Lá estaremos.

Pijama, roupão, pantufas, e uma apatia quase constante onde uma espécie de depressão, que não sendo nova, se tem acentuado a cada dia que passa.

Três a quatro dias de completar o isolamento, novo telefonema do meu manager. Soube o que vinha por aí, não sei se pelo toque do telefone, se da hora a que foi feito, ou apenas porque bem lá no fundo de mim sabia que esse telefonema seria inevitável, sendo apenas uma questão de tempo. É que… entre conferências de imprensa diárias dos governos, das promessas e das decisões, e a realidade do terreno, há uma diferença que não se coaduna com o que se promete e o que se tem vontade de fazer, e a verdadeira realidade do que realmente pode ser feito. Mas… e o telefonema…?

Saí de Sheffield no dia 13 de Abril do ano da pandemia por volta das três da tarde. Regresso ao trabalho no dia 14 e na sexta feira dia 17, depois de sete anos a trabalhar como galley technician da indústria aeroespacial nesta companhia, eu, bem como muitos outros meus colegas nas mesmas circunstâncias, num futuro que já começou, as estatísticas, mundiais ou nacionais, ao apresentarem números de desempregados vítimas das nefastas consequências da pandemia, incluir-nos-á nesse número que engrossa essas estatísticas.

Saio de casa pouco animado. Ao sair de Sheffield na minha viagem de regresso a Leighton Buzzard, apesar dos meus pensamentos longínquos e ao mesmo tempo como que apáticos têm como companhia a rádio sintonizada na BBC4. A BBC Radio 4 tem tanto de interessante como por vezes de depressivo, às vezes, raras vezes, há que ser dito, um pouco irritante. É uma emissora onde a música tem muitíssimo pouco relevo, ou quase nenhum, mas em contrapartida tem programas de uma excelência cultural riquíssima e diversa. Tem também várias horas de humor teatro e leitura. Condimentos mais do que suficientes para ser a minha estação de rádio preferida.

Mas, nos momentos de maior irritabilidade ou depressão, tenho uma espécie de backup onde o aparelho de rádio me permite ter seis CDs, o duplo álbum The Wall dos Pink Floyd, Roger Waters solo, Is This The Life We Really Want, e Amused to Dead, ainda Mark Knopfler e Roy Rodgers com Ray Manzarek (dos the Doors). Por isso, depois de cerca de trinta a quarenta minutos em que a BBC 4 começou a descambar, carreguei no botão do cd e embalado e mergulhado em mil e um pensamentos e divagações deixei-me levar pelos efeitos que a Ballad of Bill Hubbard, a música que inicia o álbum Amused to Dead de Roger Waters, sempre provoca em mim.

Há uma tristeza quase indiscritível que se abate sobre todo o meu corpo à medida que a música me envolve dos pés à cabeça. É uma tristeza onde a música quase de maneira mágica me embrulha numa espécie de conforto tão difícil de explicar quanto contraditório possa soar. Uma tristeza da qual não quero fugir, apenas me apetece senti-la, analisá-la e dela tentar perceber os contornos que a fazem ser real e tal como é.

Estou triste não porque a partir do dia 17 de Abril fico sem trabalho. É obvio que não transbordo de felicidade com a situação. É obvio que o facto tem as suas repercussões no meu estado de espírito. Mas… The Ballad of Bill Hubbard à medida que vou consumindo quilómetros à autoestrada, e um ou outro carro com que me cruzo esporadicamente (M1 que liga o norte de Inglaterra ao centro de Londres, quase vazia) o espectro de toda a situação que se vive, as incertezas e as certezas que são tão más como as incertezas, tudo isto é algo que me faz ter a sensação de estar enredado num pesadelo do qual não consigo acordar apesar de todos os esforços para dele me libertar.

Chego a pensar que certos problemas do passado, por muito maus que tenham sido, quase parecem uma brincadeira de mau gosto. Chego quase a sentir o quão fui desnecessariamente ridículo de todas as vezes em que esses problemas do passado me causaram preocupações. Chego a sentir que afinal tudo se resolve e quando achamos que um problema é grande há sempre um bem maior que poderá vir a caminho.

Sinto falta de me irritar com o trânsito, com as enormes filas que tantas vezes me puseram os nervos em franja nesta mesma M1 que agora parece nada mais nada menos do que uma autoestrada fantasma. Sinto falta de ir com os miúdos ao café no sábado e domingo de manhã para pormos a conversa em dia, como eles mesmo afirmam.

Sinto falta das coisas simples, como a liberdade de me poder deslocar de um lado para o outro sem que me sinta ou me considerem um criminoso.

Sinto falta dos abraços e dos apertos de mão. Respeito a tal distância social, mas a mesma irrita-me à brava.

Sinto falta das caminhadas no Peak-District, Snowdonia no norte do País de Gales, ou mesmo as minhas caminhadas quase diárias pela pequena cidade de Leighton. Sinto falta das mais elementares liberdades das quais, por quase de maneira automatizada as ter dado por garantidas, delas não valorizei a importância que sempre tiveram.

Entristece-me o facto de ter ficado sem trabalho, e como é obvio preocupa-me o futuro porque o mesmo se apresenta, além de incerto, de certa maneira arcano em todos os seus contornos. Mas o que mais penetra em todos os poros da minha pele, o que mais penetra bem fundo de mim, mais contagiante do que o próprio vírus é esta espécie de ausência de pessoas no planeta inteiro. É como se todo mundo tivesse saído, sabe-se lá para onde, deixando um sinal na porta a dizer, “volto em breve”.

O coração do planeta parou de bater. E isso é o que mais me assusta. Será que todo mundo se foi embora? Ou será que todo o mundo se retirou para uma profunda reflexão sobre as suas vidas, que não são absolutamente nada sem as vidas de todos sem exceção? Espero bem que seja a segunda hipótese, porque se for, o que se pode esperar é um regresso mais forte e determinado, com mais significado e com um verdadeiro propósito.

Será que apesar de tudo, apesar de todo o espectro da situação corrente, o regresso ao planeta, quando o coração do mesmo voltar a bater, significa uma nova esperança para a nossa continuidade como espécie?

Espero bem que sim.

 

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