
Quero ler-te
mas por enquanto
é só braille à distância.
Quero ler-te
mas não me vires as costas
da tua lombada
deixa-me passar os lábios
ao de leve pela seda
da tua pele
deixa-me enfiar as mãos
nas tuas páginas
senti-las por dentro
deixa toda a tua literatura
encharcar-me os dedos
afastar os teus medos
e eu desfolhar-te, despir-te,
ler-te toda, ter-te inteira.
Vem. Agora é hora!
A noite foi-nos concedida
esquece a despedida…
Eu sei, eu sei,
quantas vezes te disse adeus
mas hei-de dizer-te adeus e adeus
repetidamente
e será sempre mentira
porque te quero
e este querer não tem fim.
Por isso é hora,
agora ou nunca.
E eu o nunca rejeito e enjeito.
É hora e é agora,
vou despir-te toda
do teu preceito,
do teu trejeito e preconceito
vamos esquecer
o bem ser e o bem parecer
e simplesmente foder
como se não houvesse
amanhã.
É hora de eu correr
com a minha boca
todo o teu corpo
e sorver o sal do teu suor
lamber o desejo do teu despudor
e a minha língua abrir-te para mim,
meu livro dos desejos
eu quero que os meus beijos
te abram toda para mim,
e eu quero segurar-me aos teus cabelos
quando entrar em ti
e repetidamente, em golfadas profundas,
mais e mais, cada vez mais
dentro de ti
eu quero que te dobres e grites
apenas para receber mais prazer,
eu quero foder-te como um animal
que fode a sua fêmea
eu quero foder-te como um danado
à espera que o inferno se apague
eu quero possuir-te e dar-me a ti
no mesmo gesto total e completo
dos nossos dois corpos
penetrando-se, pertencendo-se.
Vem. É hora! Vem-te!
É a hora da nossa desforra
não há mais destino
nem desfado nem desfoda
nem desculpas nem nada.
Agora é hora! É hora de vires
e de nos virmos um no outro,
é a hora de atearmos fogo
a isto tudo e de ardermos
bem no meio,
os nossos corpos em combustão,
consumindo-se em ânsia,
fundindo-se um no outro,
fodendo como deve ser,
como sempre foi suposto ser.
Quero-te, desejo-te como nunca
desejo-te e quero-te aqui e agora,
é hora!
O nosso sexo há-de deflagrar
chamas intensas pelos oceanos
e derreter os pólos
O nosso fogo
há-de elevar-se aos céus
como tu sobre as labaredas do meu corpo
e extinguir as nuvens num só sopro.
O chão há-de fugir sob os nossos pés
e a terra desaparecer sob o nosso desejo
no vazio sideral
e nós continuaremos
um dentro do outro
a foder.
E o sol, e todas as luas e todas as estrelas
hão-de ficar abrasadas
até rodopiarem, colapsarem em si
e rebentarem em supernovas,
mas os nossos orgasmos serão ainda
mais incandescentes e lançarão
filamentos brilhantes de galáxias
pelos universos,
e isso serei eu a derramar-me
finalmente e à bruta em ti
em ondas de prazer em catadupa
e o teu corpo contorcendo-se
em espasmos de dor, e prazer e suor
e tesão
no meu.
