
Há pouco mais de um mês, no início do mês Dezembro fomos brindados com a notícia do fim das aulas integradas de Português na comuna de Esch-sur-Alzette. Esta notícia surge no seguimento de uma outra: o alegado impedimento de uma professora em deixar participar uma mão cheia de alunos numa dessas famigeradas aulas integradas.
Aquilo que a princípio parecia uma decisão tomada ao arrepio do acorde de cooperação existente para o ensino da língua de Camões à comunidade portuguesa em Esch. O que aliás viria em linha com o fim das aulas integradas noutras comunas.
De lá para cá já tivemos direito a comunicados de imprensa, atos de contrição e revelações interessantes. Sendo que foi do lado lusófono que se fizeram ouvir mais vozes não podemos deixar de deitar um olho àquilo que se diz “no outro lado da barricada”. Não foi preciso esperar muito para que quem de direito, do lado das autoridades escolares da Comuna de Esch-sur-Alzette, viesse apontar o dedo à forma como são ministradas as aulas integradas de Português e mesmo à sua coordenação.
Por partes. Assim que se noticiou esta decisão por parte da Comissão Educativa da Capital do Ferro não tardou muito até que as tradicionais acusações de xenofobia quanto à administração Luxemburguesa se fizessem ouvir. Nunca me verão a defender tão só porque sim as autoridades luxemburguesas, ou qualquer outra entidade ou individualidade, mas o seu a seu dono.
Após um primeiro momento de silêncio, como referido, a responsável da Comissão Escolar de Esch, Chantal Schroeder, veio explicar que há já alguns anos detectaram falhas no sistema que, em parceria com as autoridades portuguesas aqui representadas pelo Camões Instituto Público e a sua Coordenação de Ensino, permite aos alunos luso descendentes serem ensinados na língua dos seus pais.
Não sou contrário a que os alunos pertencentes à comunidade portuguesa tenham a possibilidade de ser ensinados na sua língua. Tenho, no entanto, que dizer que este subsistema não poderá existir de outra forma que não em perfeita articulação com o sistema de ensino “hospedeiro”. E é precisamente nesse sentido que vão as críticas de Chantal Schroeder, principalmente a falta de coordenação de conteúdos entre as aulas integradas e as aulas “normais” e a não avaliação da aprendizagem de forma transversal a toda a comunidade escolar. Outros argumentos são utilizados: a não integração do contingente português e o assédio aos pais portugueses para que procedam à inscrição dos seus filhos. Quanto a estas duas acusações não será fácil, pela sua subjetividade, aferir a verdade.
Mas, verdade que seria fácil de aferir, ou desmentir, seria a acusação de Chantal Schroeder de que, tendo sido tentados vários contactos por parte do organismo que representa, nunca houve uma contribuição por parte das autoridades portuguesas. Volveu-se um mês desde que estas acusações foram feitas e da parte da Coordenação de Ensino nem uma palavra. Desconheço se serão verdade as acusações, mas o silêncio sobre estas começa a assemelhar-se a uma discreta assunção de culpa. Seria importante saber o que tem o acusado a dizer.
Esta suspeita não contrariada de algum desleixo leva-me aos últimos dois pontos: o abaixo assinado promovido pela, agora, Associação de Pais Portugueses de Esch. É sempre de louvar a iniciativa popular na procura de justiça quando toca aos seus direitos e ambições e deixo daqui a minha felicitação por tal iniciativa. Acho só estranho que, tendo em conta as suspeitas que pendem sobre a Coordenação de Ensino Portuguesa, tenha sido precisamente este organismo a servir de mediador entre os pais e as autoridades luxemburguesas.
Por fim, sendo que este é um problema transversal a todo o país não se compreende o porquê de as instituições que se afirmam representativas da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo não terem envolvido as demais associações de pais portuguesas que existem no país. No que toca a alguma delas nem sequer um contacto foi intentado. A união faz a força e seguramente não é só em Esch-sur-Alzette que descendentes de imigrantes portugueses tem direito a aprender a língua de Camões.
Espero que a postura das estruturas lusófonas não seja esta uma manobra de branqueamento das suas responsabilidades e inaptidão em todo este processo.
Responsabilidades à parte, a verdade é que são, neste caso, os mais indefesos a ser prejudicados por causa dos jogos e manobras daqueles que clamam defender os seus interesses. De ambos os lados da “barricada”.
