
Vivi mais de 10 anos em Matosinhos Sul (zona fina), num apartamento generoso (grande), com condomínio fino (caro) e só soube o nome da minha vizinha do lado porque me esforcei.
Um dia, numa emergência, bati-lhe à porta e pedi-lhe um pacote de leite. Quando lho tentei devolver tive de ultrapassar uma barreira de negas até conseguir repor justiça, o que me levou a ficar com a indelével impressão de que a vizinha me considerava pobre. (Até nem é mentira grande, mas a impressão é mais incómoda).
Era mesmo um prédio de gente fina, mas algumas finezas nem resposta a um bom dia/ boa tarde davam e, reparem!, nessa altura nem havia covid no elevador.
Os mais simpáticos eram um casal de cima, julgo que ambos juízes, desempoeirados, sorridentes e iniciadores de conversas.
Pois agora vivo num apartamento na zona Norte de Matosinhos, zona velha e popular, num rés do chão de casa antiga impecavelmente convertido em pouco mais do que uma caixa de sapatos, paredes meias com vizinhos como nunca antes.
Não há elevador e não há condomínio, uma benção. Mas não acaba aqui.
Sei os nomes de todos os vizinhos.
No espaço traseiro que deve ter sido, em tempos idos, o jardim da casa, existe uma ilha, impecavelmente convertida numa caixa de sapatos como a minha.
Basicamente lavo a louça defronte de uma janela onde vejo o vizinho a fumar no seu pátio exterior privado. (Também o vi um par de vezes sacudir energicamente tapetes em troco nu, aí pelo fim da Primavera, mas não dei demasiada importância).
Pouco tempo depois de nos mudarmos bateram-nos à janela e, sem mais, ofereceram-nos uma generosa dose de camarão da costa cozido. Alguns meses depois foram navalheiras.
Ontem o António (o encantador) recebeu da vizinha o que aqui vedes, champanhe e farofas.
Achei aquilo tão demais que tive de me penitenciar, chegando- me à varanda com um molho de grelos nos braços e reclamando que mais não tinha para partilhar.
Lá se repôs o equilíbrio com uma dose maxi em estojo natalício de Ferrero Rocher que, no fim de contas, só nos ia fazer mal. É que os vizinhos são novos.
Isto tudo para vos dizer que este mundo existe e eu não comia farofas desde 1972.
