De que está à procura ?

Colunistas

Queimo as horas

Contemplo os dias a passar lá fora
iguais e cada vez mais forasteiros
o nome da avenida onde moro agora
parece-me o contrário do que me sinto
preso a uma existência em que não me reconheço
olho sem verdadeiramente ver
porque o meu olhar se vai tornando ausente
e hiperpresente ao mesmo tempo
de tudo o que a vista não alcança
atravessa a rua, os prédios, a floresta
as fronteiras e o horizonte
até a linha curva da esfera terrestre
nessas margens do oceano cósmico
respiro e deixo enterrarem-se-me
os pés na areia molhada da praia
e vejo um mundo que não existe.

Daqui, que olho, o que há para ver?
Apenas a glória esvaída de velhas moradias de engenheiros
de um mundo de ferro e aço com pés de barro
já quase extinto mas ainda tina
ainda atordoa o meu cérebro
o estrondo ensurdecedor de bigorna no céu em fogo
da minha infância nas terras vermelhas
de noite e de dia sem dar azo ao silêncio.

Depois surgindo da escuridão
o ruído repetido de vagões transportando
traves metálicas para o outro lado do globo
estas vigas viajam mais do que eu
do Tejo ao Bósforo, das Três Gargantas a São Francisco
erguem-se em obras faraónicas, sustêm mundos
ligam continentes de pés submersos em oceanos.

Deste lado da vidraça observo
a própria vida a viajar mais do que eu
fico absorto no voo singular
e majestoso mas errático para mim
com certeza muito decidido e instintivo para ela
de uma abelha em torno de uma romã
que me deixou a minha mãe
quando passou cá em casa.
A roma, não a abelha!
“O chá de casca de romã é bom
para tudo, para a circulação
para as articulações e para a tensão,
não te esqueças de fazer o chá!”
disse-me, não foi um pedido
antes uma mezinha de mãe
“Ai, meu deus, um homem sozinho
não sabe cuidar de si…”
e abanando a cabeça foi-se
não sem antes se despedir três vezes
e me falar no chá novamente.

Ainda não fiz o chá, estou aqui a olhar
para esta apis domesticae, abelha.
Com o que é que sonha uma abelha?
Os insectos também sonham?
E tu, sonhas com o quê?
“Tenho em mim todos os sonhos do mundo”, dizia Pessoa.
Sim, e então? Não basta tê-los!
O que vais fazer com isso?

Queimo as horas assim, na indistinção
de fazer coisa nenhuma
o mundo e o tempo aguardam-me
e eu aqui na indecisão
de mim mesmo perante eu próprio
na soleira da porta entre o consciente
o inconsicente e o subconsciente
entre o querer e querer lá saber
porta de girar que rodopia sem parar
um corredor de espelhos de eus ao infinito.
Alucinação?
Eu sou isso tudo? vertiginoso!
Almareio, cambaleio
titubeio sem dar o passo em frente
atrasado como nunca costumo estar
deste encontro comigo mesmo.

Não quero enfrentar o meu mostrengo
fujo lá de dentro de mim a sete pés cá para fora
penso escapar ao labirinto e ao minotauro
mas é puro engano da alma lerda
um dia terei mesmo de dobrar esse cabo
terei de vencer o adamastor
aniquilar o monstro.

Enquanto não atravesso esse hemisfério
tudo espera por mim
os romances inacabados
os livros em preparação
os poemas por publicar
os textos por recuperar
os rascunhos por reescrever
os livros por ler
olham-me de soslaio
já estou habituado ao seu ar increpado
percorro as estantes e as prateleiras de A a Z
da Poesia à História, da Ficção à Religião
oh, rimam as duas, serão irmãs?

Oiço o soalho a ranger sob os meus pés
e é estranho esse gemer do chão
sob o meu peso
como se só o ouvisse agora
– és tu, monstro? –
escolho um livro, abro-o ao acaso
folheio-o, recoloco-o no lugar
puxo outro da estante ao lado
admiro a capa, miro a contrapa
prefiro dizer “quatrième de couverture”
tem mais musicalidade
e parece um passo de dança
deixo as páginas seduzirem-me os dedos
“allez hop!”, levo-o debaixo do braço.

Sento-me na poltrona em frente ao Pessoa
ele faz que não me vê
como sempre…
Queres um cigarro?, lanço-lhe.
Não me responde
como sempre.

Leio. ‘’É a história de um homem que… ‘’
As primeiras páginas enfadam-me
bocejo, ponho o livro de lado
acerco-me da escrivaninha
pego na montblanc
escrevinho notas, um “pense-bête”
como se apenas os tolos
tivessem memória de peixinho
recosto-me melhor na cadeira
percorro jornais, recorto artigos
guardo páginas inteiras
para arquivar numa torre do tombo
que só existe na minha cabeça
porque mesmo se a minha ambição bibliómana
– bibliófila? bibliópata? –
é do tamanho do mundo
e de as minhas estantes já atapetarem
as paredes quase por completo
a minha biblioteca nunca poderá ser
como a torre picassiana da feiticeira Circe no Ulisses 31
que possuía desde tábuas de argila a papiros
e pergaminhos, livros e cassetes
e só não tinha a wikipédia
porque nos primórdios dos anos 1980
já se sabia que essa invenção
do início do segundo milénio
não chegaria ao terceiro.

A minha biblioteca nunca será…
como a de Alexandria
não sou Eratóstenes nem Arquimedes
não pertenço aos Ptolomeus
nem tenho ouro suficiente
para enviar mercenários por aí
a comprar e roubar livros pelos três continentes
e até à orla do mundo conhecido.
A minha biblioteca não pode ser
simplesmente maior do que as dimensões físicas
da divisão do primeiro andar onde a circunscrevi.

Mas a verdadeira pergunta é:
para que raio quero eu acumular tantos livros?
tê-los dá-me a impressão (falsa, obviamente!)
de possuir todo este conhecimento? É tão pueril!
E, no entanto, continuo a comprar, a adquirir
a coleccionar, coligir, compendiar, colectar
bulimicamente, cinoreticamente,
hiperoreticamente, licoreticamente
bem sei, estes advérbios não existem
deixem-me inventar neologismos
enriquecer a língua
se outros podem porque não eu
ah, não tenho legitimidade?
depois de quantos livros poderei?
depois de quantos prémios?
após quantos Nóbeis?
“Ó sombra fútil chamada gente!”,
outra vez Pessoa a interromper-me
quando não é chamado.
“Ó fútil ambição, que destróis
as próprias fontes da tua vida!”,
responde Shakespeare da estante em frente.

A minha biblioteca só pode ser isto
só pode ser esta que tenho já dentro de mim
de todos os livros que li
das histórias que sei de cor
dos romances que rememoro
mesmo incompletamente
as personagens confundindo-se umas com as outras
Tintim toma chá numa esplanada
de Bruges com Vyvyan Ayrs
Dâmaso Salcede passa ao largo de braço dado
com Emma Bovary e Anna Karenina
ao lado Dean Corso e Corto Maltese fumam
noutra mesa a Adèle Blanc-Sec beberica champanhe
com o Major Alvega, Druuna dá uma cotovelada
a Silas Flannery que deixa cair o chapéu no chão
o pequeno Príncipe pergunta a Tom Sawyer
se há um elefante debaixo do chapéu
Hércule Poirot cofia o bigode e sorri aos miúdos
Guilherme de Baskerville pousa o livro que está a ler
e pergunta ao inspector se viu por ali um cão a vadiar.
Na mesma esplanada afinal reconheço mais gente
Calvino, Hergé, Anthímio de Azevedo, Conan Doyle,
Flaubert, Twain, Pratt, Serpieri, Eça, Tolstoi
Agatha Christie e David Mitchell.
Pronto, é tão fácil inventar livros que não existem.
Felizes os idiotas e os tolos
porque não sabem o que é a infelicidade.

Esta é a minha biblioteca possível
igual a nenhuma outra
na qual mergulho e me inspiro quando escrevo
assim como a vida que decorre à minha volta
matéria prima por excelência da escrita.
Se falto em vivê-la, hei-de ao menos escrevê-la.
“Contarla, por que no he logrado vivirla”,
para parafrasear bem mal García Márquez!

José Luís Correia
JLC170721
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Je brûle les heures

Je contemple les jours qui s’écoulent dehors
toujours les mêmes mais qui me sont de plus en plus étrangers
le nom de l’avenue où j’habite maintenant
me semble être le contraire de ce que je ressens
piégé dans une existence dans laquelle je ne me reconnais pas.
Je regarde sans vraiment voir
parce que mon regard devient absent
et hyper-présent en même temps
de tout ce que l’œil ne peut voir
mon regard traverse la rue, les bâtiments, la forêt
les frontières et l’horizon
jusqu’à la ligne courbe de la sphère terrestre
et sur ces rives de l’océan cosmique
je respire et je laisse s’enterrer mes pieds
dans le sable mouillé de la plage
et j’aperçois un monde qui n’existe pas.

D’ici, qu’est-ce que je regarde, qu’y a-t-il à voir?
Que la gloire fanée des anciennes villas des ingénieurs
d’un monde de fer et d’acier aux pieds d’argile
déjà presque éteint mais toujours vrombissant
martèle toujours mon cerveau
ce tonnerre assourdissant d’enclume dans un ciel en feu
de mon enfance des Terres Rouges
nuit et jour sans céder au silence.

Puis émergeant de l’obscurité
le bruit répété de wagons transportant
des poutres métalliques à l’autre bout du monde
ce metal voyage plus que moi
du Tage au Bosphore, des Trois Gorges à San Francisco
il s’élève en des œuvres pharaoniques
soutient des mondes
relient des continents
avec ses pieds immergés dans des océans.

De ce côté de la fenêtre, j’observe
la vie elle-même voyager plus loin que moi
je retiens mon attention sur le vol singulier
et majestueux mais erratique pour moi
certainement très décidée et instinctive pour elle
d’une abeille autour d’une pomme grenade
que ma mère m’a laissé
quand elle est passée chez moi.
La pomme grenade, pas l’abeille !
“Le thé aux écorces de grenade est bon.
pour tout, pour la circulation
pour les articulations et la tension,
n’oublie pas de faire le thé !”
m’a-t-elle dit, ce ne fut pas une demande
plutôt un conseil de remède de grand-mère
“Oh mon Dieu, un homme seul
ça ne sait pas prendre soin de soit…”.
et en secouant la tête, elle est partie
mais pas avant d’avoir dit au revoir trois fois
et de me recommander à nouveau le thé.

Je n’ai pas encore préparé le thé
je suis bien trop occupé à regarder
cette apis domesticae, l’abeille.
De quoi rêve une abeille?
Les insectes rêvent-ils aussi?
De quoi rêves-tu?
“J’ai en moi tous les rêves du monde”, disait Pessoa.
Oui, et alors? Il ne suffit pas de les rêver!
Que vas-tu en faire?

Je brûle les heures comme ça
dans l’indistinction de ne rien faire
le monde et le temps m’attendent
et je reste ici dans l’indécision
de moi-même face au je
sur le seuil entre le conscient
l’inconscient et le subconscient
entre le vouloir et le je m’en fout
porte tournante qui ne s’arrête jamais
hall de miroirs de moi-même à l’infini.
Hallucination?
Suis-je tout ça? Vertigineux!
Je traîne des pieds, je titube
chancelant sans faire de pas en avant
en retard comme je ne le suis jamais
de cette rencontre avec mon moi.

Je ne veux pas faire face à mon monstre
je m’en fuis en courant de moi-même vers le dehors
je pense ainsi échapper au labyrinthe et au minotaure
mais c’est que pure tromperie de mon âme lente
un jour je devrais doubler ce cap
je devrais vaincre le kraken
je devrais anéantir le monstre.

Tant que je ne traverserais pas cet hémisphère
tout m’attend
les romans inachevés
les livres en préparation
les poèmes à publier
les textes à récupérer
les ratures à réécrire
les livres que je dois encore lire
me regardent méfiants.
Je suis déjà habitué à leur air accusatoire
je parcours les étagères et les rayons de A à Z
de la poésie à l’histoire, de la fiction à la religion
tiens, elles riment, seraient-elles sœurs?

J’entends le sol craquer sous mes pieds
et c’est étrange que le sol gémisse sous mon poids
comme si je ne l’entendais que maintenant
– c’est toi, monstre? –
je choisis un livre, je l’ouvre au hasard
je le feuillete, je le remets à sa place
j’en prends un autre dans l’étagère d’à côté
je regarde la couverture, j’admire la quatrième de couverture
je préfère dire “quatrième de couverture” (en français dans le texte).
le mot a plus de musicalité
et ressemble à un pas de danse
je laisse les pages séduire mes doigts
“Allez hop !” (en français dans le texte), je le prends sous le bras.

Je m’assieds dans le fauteuil en face de Pessoa
il fait semblant de ne pas me voir
comme d’habitude…
Tu veux une cigarette?, je lui demande.
Il ne me répond pas
comme d’habitude.

Je lis. “C’est l’histoire d’un homme qui… ”
les premières pages m’ennuye
je baille, je pose le livre
je m’assieds à mon bureau
je prends mon montblanc
j’écris des notes, un “pense-bête” (en français dans le texte)
c’est bête de penser qu’il n’y a que les gens bêtes
à avoir une mémoire de poisson
je me redresse dans ma chaise
je feuillette les journaux, je découpe des articles
je garde des pages entières
pour archiver dans une “torre do “tombo” (c.f. archives nationales du Portugal)
qui n’existe que dans ma tête
parce que même si mon ambition bibliomane
– bibliophile? bibliopathe? –
est de la taille du monde
et que mes étagères couvrent déjà
presque entièrement les murs
ma bibliothèque ne pourra jamais être
comme la tour picassienne
de la sorcière Circée dans Ulysse 31
qui contenait des tablettes d’argile au des papyrus
de parchemins, des livres et des cassettes
et qui n’avait pas wikipédia
juste parce qu’au début des années 1980
on savait déjà que cette invention du début du deuxième millénaire
n’atteindrait jamais le troisième.

Ma bibliothèque ne sera jamais
comme celle d’Alexandrie
je ne suis pas Eratosthène ou Archimède
je n’appartiens pas aux Ptolémées
et je n’ai de toute façon pas assez d’or
pour envoyer mes mercenaires
acheter et voler des livres sur les trois continents
et jusqu’aux limites du monde connu.
Ma bibliothèque ne peut pas être
simplement plus grande que les dimensions physiques
de la pièce du premier étage où je l’ai circonscrite.

Mais la vraie question est:
pourquoi diable ai-je envie d’accumuler autant de livres?
les avoir me donne l’impression (fausse, évidemment!)
de posséder toutes ces connaissances?
C’est tellement puéril !
Et pourtant, je continue d’acheter, d’acquérir
de collecter, collectionner, compiler
boulimiquement, kinoriquement
hyperorétiquement, licorétiquement
je sais, ces adverbes n’existent pas
laissez-moi inventer des néologismes
enrichir la langue
si d’autres peuvent le faire, pourquoi pas moi ?
ah, je n’ai aucune légitimité?
après combien de livres pourrai-je le faire?
après combien de prix?
après combien de Nobels?
“Ô ombre futile que l’on appelle humain!”,
Pessoa m’interrompt
chaque fois que je ne m’adresse pas à lui.
“Ô ambition futile, qui détruit
les sources mêmes de ta vie !”
répond Shakespeare depuis l’étagère d’en face.

Ma bibliothèque ne peut être que celle-ci
elle ne peut être que ce que j’ai déjà en moi
de tous les livres que j’ai lus
des histoires que je connais par cœur
des romans dont je me souviens
même incomplètement
les personnages se confondent
Tintin prend le thé sur une terrasse à Bruges avec Vyvyan Ayrs
Dâmaso Salcede passe bras dessus bras dessous
avec Emma Bovary et Anna Karénine
à côté Dean Corso et Corto Maltese fument
à une autre table Adèle Blanc-Sec boit du champagne avec Major Alvega
Druuna donne un coup de coude à Silas Flannery
ce qui projette son chapeau sur le sol
le Petit Prince demande à Tom Sawyer
s’il y a un éléphant sous le chapeau
Hercule Poirot coiffe sa moustache et sourit aux enfants
William de Baskerville pose le livre qu’il est en train de lire
et demande à l’inspecteur s’il a vu un chien errant par là.
Sur la même terrasse, je reconnais finalement d’autres clients
Calvin, Hergé, Anthímio de Azevedo, Conan Doyle,
Flaubert, Twain, Pratt, Serpieri, Eça de Queiroz, Tolstoï
Agatha Christie et David Mitchell.
Voilà, c’est si facile d’inventer des livres qui n’existent pas.
Heureux les idiots et les fous
parce qu’ils ne savent pas ce qu’est le malheur.

Voici ma bibliothèque possible
pas comme les autres
dans laquelle je plonge et puise mon inspiration lorsque j’écris
ainsi que la vie qui se déroule autour de moi
matière première par excellence de l’écriture.
Si je ne parviens pas à la vivre, au moins je l’écrirai.
“Contarla, por que no he logrado vivirla”,
pour paraphraser très mal García Márquez!

José Luís Correia
JLC170721

 

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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