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Quebrado

O assunto é bastante sério, ou não estivéssemos neste momento a assistir a um funeral.

Não que tenhamos qualquer afinidade com o finado, e nem sequer nos debruçamos sobre o teclado do computador para falar dele, até porque dele pouco ou nada sabemos, e do pouco, apenas que entre ele e o protagonista desta pequena, séria, e com uma mensagem entre linhas, história, havia uma grande amizade.

Talvez por isso, no decorrer das cerimónias fúnebres se vão descobrir coisas acerca do protagonista, uma figura publica da comunicação social, que até então eram completamente desconhecidas, dir-se-ia mesmo, absolutamente inesperadas.

A dor, a que vem de dentro e não se sente no corpo mas sim na alma, pode vergar até o mais forte, o que parecia inabalável, o que até é capaz de mostrar alegria nos momentos de boa disposição, mas esconde, por vezes com uma gargalhada desgarrada, os momentos que o ferem, ou que o desapontam, que o entristecem.

Choveu durante a noite. Pouco, mas choveu.

Contra todas as expetativas o dia amanheceu com um radioso sol que ao debruçar-se sobre a relva verdejante que circunda a maioria das campas do cemitério, aos poucos a foi secando com os seus raios de calor, apesar de tudo ainda ténues, deixando aqui e ali umas gotas de chuva como um colar de diamantes que ali se tivesse dispersado.

As cerimónias fúnebres começaram agora mesmo e a pequena plateia de enlutados, sentada nas cadeiras de frente à urna, quatro filas de cinco cadeiras cada, ouve com todo o ar de solenidade o padre que preside às celebrações fúnebres, interrogando-se, mesmo que apenas mentalmente, onde estará o melhor amigo do defunto, aquele que desde muito tenra idade selou uma amizade com ele que jamais sofreu um pequeno abalo que fosse.

A atmosfera tácita que reinava entre os enlutados que do padre pareciam ouvir apenas um murmúrio longínquo, foi interrompida pela voz aguda e nada contente de uma criança que corria atrás de um adulto empoleirado numa bicicleta pequena de mais para o seu tamanho.

É minha, é minha, – gritava à medida que perseguia o homem que por sua vez parecia ignorar por completo as suas lamúrias.

Não demorou que o dito homem perdesse o equilíbrio na bicicleta e esta viesse desenfreada pela encosta à medida que ele sempre que passava um solavanco o rabo se distanciava uns bons centímetros do selim para depois cair nele novamente com toda a força, enquanto que ao mesmo tempo abria as pernas em leque para sustentar o equilíbrio que apesar de tudo era muito inconstante enquanto que a bicicleta ganhava cada vez mais força encosta abaixo.

Os enlutados rodaram quase em simultâneo a cabeça na direção do burburinho e foi de boca aberta e queixo caído que seguiram o desalmado que perdendo o controle da bicicleta atravessou o cemitério até se estatelar de encontro ao caixão, que com o embate ficou a balançar entre o cai e não cai…, mas não caiu.

Quem o viu e quem o vê. Nem parece o mesmo homem. O nó da gravata solto e quase a tocar-lhe no ombro, a camisa desapertada e com uma grande e visível nódoa de vinho tinto a deixar perceber algumas antecipadas conclusões, o fato amarrotado, o cabelo despenteado, um olhar esgazeado e quase perdido, um sorriso que não dábem para perceber se nele existe alguma ponta de contentamento ou uma profunda tristeza.

Levantou-se, sacudiu as calças, deu duas palmadinhas na tampa do caixão e disse,

“Desculpa se te acordei”

As pessoas continuaram de boca aberta e queixo caído e talvez por isso, e só por isso não seria com certeza, iam movendo os olhos na sua direção à medida que ele se ia mexendo para aqui e para acolá.

Quase que não dava para acreditar. O homem direito, de personalidade vincada e sem qualquer defeito que se lhe apontasse, apresenta-se no funeral do seu melhor amigo despedaçado em farrapos. E não nos referimos à sua vestimenta, mas sim ao seu coração. Por vezes a dor profunda manifesta-se de maneiras misteriosas.

Sem sequer mover os lábios o padre aponta-lhe a cadeira vazia na fila da frente.

Ele pareceu compreender e foi-se sentar. Ao menos isso, pensou o padre ao mesmo tempo que apertava os olhos de maneira muito ligeira, franzia a testa e encolhia os ombros.

Ele sentou-se, mas completamente desengonçado, a escorregar pela cadeira, quase a tocar com o rabo no chão, sempre de olhar fixo na urna. De repente compõem-se, senta-se direito na cadeira, roda o pescoço para as filas atrás de si, e diz,

“Então não é que o cabrão se vai embora sem sequer se despedir…?”

Na última fila, um homem calvo e avermelhado de cara, sussurrou para a sua direita,

“Ele está tolo…”

Mas foi da esquerda, duas cadeiras a seguir à sua, que lhe responderam, também entre dentes,

“O vinho assentou-lhe mal”

E da fila do meio um velho que segurava o boné axadrezado, enrolado nas mãos, quase grunhiu quando disse,

“Vi-o na tasca do Betorino hoje de manhã bem cedo. A esta hora já é o vinho a ferver no estômago e o sol a queimar-lhe a moleirinha. Quem diria que este senhor se deixava ir abaixo assim desta maneira. “

Não que o amigo do defunto não fosse homem de saber confraternizar, nas alturas adequadas, com umas boas farras que sempre metiam uns copos à fartazana, mas nunca tinha ultrapassado os limites do que sabia poder ou não aguentar, pelo menos não ao ponto de perder a noção do ridículo.

Entre pequenas e nervosas gargalhadas, lágrimas à mistura, subiu ao pequeno púlpito ali colocado para que se falasse do defunto, para que se recordassem alguns dos feitos e momentos da sua vida que mais marcaram quem com ele se cruzou e com ele conviveu, e recordou alguns desses preciosos momentos que além de serem já passado, ficaram largados no tempo para por algum tempo apenas, limitado apesar de tudo, serem assim recordados por quem deles aviva as memórias.

E a coisa até nem tinha corrido muito mal se em certos intervalos do seu discurso não desse umas gargalhadas despropositadas e embaraçosamente altas, ruidosas.

O homem calvo e avermelhado de cara só dizia, entre dentes e em sussurro,

“Ele está tolo…”

E o velho do boné axadrezado, enrolado nas mãos, aqui e ali ia metendo umas achas na fogueira,

“É o vinho, é o vinho…”

E a coisa piorou quando ele, o amigo do defunto, se aproximou do caixão e com ar absolutamente esgazeado disse,

“Estás muito calado…não dizes nada?”

E como se isso não bastasse virou as costas para a urna, inclinou-se quase a bater com a cabeça na ponta dos sapatos, baixou as calças e disse,

“Encontramo-nos na face oculta da lua”

E houve um ah prolongado, quase em uníssono, quase sincronizado, e a senhora da fila da frente que fazia lembrar a barra de sabão do tio do Badaró, com um metro e sessenta de altura e dois metros de largura, disse escandalizada,

“Homessa…”

Dizem as más línguas que a dita senhora era de bom comer, e contava-se que um dia, na tasca do Vitorino, numa tarde, ao lanche comeu seis bolinhos de bacalhau, seis rissóis, seis croquetes, uma posta de fígado de cebolada e vinte e cinco sardinhas fritas, das pequeninas, e depois de tudo isso deixou descair os mamalhões sobre o tampo do balcão ao se debruçar sobre ele, e no ar mais desconsolado que se possa imaginar, disse para o tasqueiro,

“Olhe lá ó Betorino, vossemecê não tem aí nada que me chegue ao estômago…?

Como já se percebeu a senhora era avantajada e não era só de estômago, por isso, quando ela voltou a repetir,

“Homessa…”

Desta vez em voz mais alta, o amigo do defunto, quase inexplicavelmente pareceu levar com um balde de água fria que lhe devolveu os seus sensos, o que mais estava a necessitar no momento era o do ridículo.

Teria sido muito mais fácil se deixasse fluir os seus sentimentos de profunda dor, tristeza e saudade pela perda do amigo, de maneira normal, mas os esforços que aplicou no sentido de abafar esses sentimentos, a começar pela tasca do Vitorino, fizeram com que se perdesse por completo numa teia de emoções com as quais não sabia lidar.

Quão mais fácil seria chorar apenas. Afinal essa ideia de que os homens não choram, além de estar mais do que gasta, nunca fez sentido nenhum, por não ser verdadeira.

António Magalhães   

 

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