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Que se foda a poesia!

Que farei com a enxurrada
das palavras-rio
que banham e fertilizam
as margens da minha alma
e os romances-oceanos
que se espraiam em mim
e desenham e esculpem
os contornos e as faces do meu continente,
e os navios-biblioteca que aqui ancoram
e me trazem aventuras e desventuras por contar
como especiarias raras e exóticas por destilar?
Que farei com as gaivotas-poema
que trazem sal e saber a mar
e as andorinhas-sonetos livres
com Primaveras por cantar?

Que farei com isso tudo
se tudo isso ignorar
se é isso que me resgata
das poeiras, das tempestades,
dos maremotos em mim,
do mistério dos ócios estrangeiros
e do mau governo dos assuntos íntimos
que inexorável e insistentemente
tentam devastar-me, encher-me de inanidade
tornar-me árido e indolente?
E a rotina dos dias, e o trabalho do escritório,
e os horários dos comboios, e as chatices,
e as obrigações, e os deveres, e o trânsito,
e os semáforos, e as compras, e a gasolina…
Porra, não posso esquecer-me
de pôr gasolina no carro!
Que se foda a poesia!

Não são estes verbos vivos feitos marés
a subirem por mim acima
que vão atestar o meu automóvel
e nem as metáforas sabem lavar loiça!
Deambule inutilmente pela escrita
quem não tem medo nem a roupa para tirar
da máquina de lavar e outro cesto para ir buscar.
Hein, Al Berto?
Que se foda a poesia!

Trabalhe a métrica, a técnica
e as figuras de estilo
aprendidas metodicamente
na oficina de escrita criativa
quem não tem facturas para pagar
declarações de impostos por preencher
a viagem de avião para marcar
ou a carta da advogada para responder…
Alexandrinos, alexandrinos, pfff…
nem tão pouco quando sou Alexandre!
Que se foda a poesia!

Que farei com estes mundos em mim
e com todas estas vidas por dizer?
“Man, I’ve got a whole
God damn concert in my head!”
Sim, Jim, mas eu cá não posso
embebedar-me todas as noites,
nem deixar a pira a arder madrugada fora
nem viajar até aos Parnassos
para vislumbrar o sentido do Universo
e fitar o rosto de Deus –
nem tão pouco posso ligar-lhe,
ele já há algum tempo
que não atende os meus telefonemas –,
porque eu tenho a panela
para tirar do lume e o puto…
“Pai, comemos a que horas? Tenho fome!”
Que se foda o Poe e o Whitman e o Antero,
o Sá-Carneiro, o Éluard e o Apollinaire,
a Florbela, o Drummond de Andrade, o O’Neill,
o Ary dos Santos, a Sophia,
o Barco Bêbado e a Chuva Oblíqua
e o Saint-Exupéry…
“Papá, desenha-me uma árvore,
não sei como se faz!”,
e as visões das estrofes
que sobem em escadaria de caracol
até à torre mais alta da criação
e ao pináculo mais elevado da ode filosofal
são devoradas pelas gárgulas da realidade
esfumam-se Gedeão, Rimbaud e Verlaine
e toda a corja de versejadores
que vejo daqui até Píndaro e Alceu de Mitilene…
A poesia não espera!
Que se foda a poesia!

E quando pela manhã a água do chuveiro
me devolve aos poucos ao mundo –
e o cappuccino que fará o resto
faz-se sozinho em auto-piloto,
café-com-espuma de leite
automaticamente debitado,
só tenho de carregar num botão –
o meu cérebro lavado
embarca em versos-precipício
desfiladeiros que se transformam em voos
e as minhas mãos e o meu coração
clamam pela caneta ou pelo teclado
querem saltar cá para fora, querem nascer
querem dar à luz e ser luz
tem que ser agora…
Toca o telemóvel. “Sim, mãe,
passo pela tua casa mais logo.
O pai está melhor?”
E o verso foi-se, perdeu-se,
que se foda, a poesia não espera.
… e os teus olhos como sóis
incendiando o meu peito…
“Papá, fiz xixi!”
Que se foda a poesia!

Tenho a cozinha por arrumar
as camas por fazer
o lixo para levar lá fora,
a estante que ruiu também espera
o prédio por pregar
os livros olham-me de soslaio
de cima do parapeito da janela
como a Santa Inquisição
ou pior, como se fossem órfãos
e eu os tivesse abandonado.
“Você tem duas mensagens.
Olá, como estás?
Vamos beber um copo?”
Não devia ter aberto
a merda do Facebook…
Que se foda a poesia!

A poesia é urgente, não espera,
e mesmo se o corpo não aguenta
a poesia não quer saber
se me levanto às cinco e meia da manhã,
e tenho de preparar o pequeno-almoço
a pasta do trabalho, a mochila do miúdo,
“leite com cereais?”
“hã, queres misturar com Nestum?”
“e iogurte com verdadeiros
pedaços de fruta, papá!”
Levar o puto à escola,
passar uma hora nos transportes públicos,
mais oito ou nove no escritório,
entre a fotocopiadora e os dossiers
importantes, prioritários e urgentes,
o cérebro está aceso ou apagado?
E a alma?
Ir buscar o puto à escola,
dar-lhe banho, vestir-lhe o pijama,
preparar um simulacro
de jantar equilibrado,
escovar os dentes,
contar uma historinha,
… e o Bertolt Brecht
e o Miguel-Manso assolam-me…
Epá, agora não!
Então a Carochinha casou com o Lobo Mau
porque o João Ratão ficou a comer
o lanche da Capuchinho Vermelho…
Ah, desculpa filho, enganei-me outra vez!…
Ele fecha os olhos, dou-lhe um beijo
e esquivo-me de mansinho
… pelos pomares do teu corpo
fruto maduro que…
“Papá, não consigo dormir!
Vá, já é tarde, tens de descansar.“
E quando caio finalmente na cama
lembro-me que tenho que pôr
o jantar num tupperware
e guardá-lo no frigorífico
(por uma vez que cozinhei
um prato comestível!).
Depois disso, escrever o quê?
Que se foda a poesia!

Que seja de sonos poucos
e noites muitas
quem ganha o Prémio D. Diniz 1997
e tem a posteridade toda diante de si
e aguenta serões inteiros a escrever
a riscar, rasurar e reescrever.
Por amor de Deus, não há pachorra para
o poeta ou para o escritor (é a mesma escória!),
esse ser miserável, abominável, inominável,
danado, completamente maldito,
é um grande desequilibrado,
só pode ser um grande maluco
um gajo todo destrambelhado
para se pôr a escrevinhar
rimas ranhosas, frases-vómito,
elegias e panegíricos pastoris,
e odes às fodas e fodas às odes
enquanto a vida acontece lá fora
e há o Amor para viver
e filhos para criar!
Foda-se, não aprendeste nada com o Pessoa?
Que se foda a poesia!

Mas, que farei quando tudo arde, António?
Poesia?
Poesia, porra!
Então, Zé, quando é que publicas um livro?
Pfff…
Que se foda a poesia!

JLC25032019