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Que força é essa?

«Vi-te a trabalhar o dia inteiro; construindo as cidades pr’ós outros; carregar pedras, desperdiçar; muita força p’ra pouco dinheiro»

No ano de 1971, é com estes versos que Sérgio Godinho inicia a sua carreira discográfica. Num Portugal mergulhado num cada vez mais decadente regime salazarista em que os direitos dos trabalhadores eram uma miragem e em que o individuo era suprimido face à omnipresença e prepotência da Nação este opus era algo de impensável.

Mas o cunho dos artistas é precisamente aquele que, negramente, cantava José Régio: «Se vim ao mundo, foi só para desflorar florestas virgens, e desenhar os meus pés na areia inexplorada!»

Neste tempo em que nos canta Sérgio Godinho os homens ainda se perfilavam de manhã na praça de jorna, sem saber se seriam chamados ou não para o trabalho. Ali ficavam sujeitos aos caprichos do feitor. Temendo que este se recordasse de algum percalço passado na sua conduta que os impedisse hoje de, ainda que possuidores de dois braços válidos, ir ganhar o parco sustento que tanto necessitavam.

Os que eram engajados longe de casa, dormiam amontoados em abrigos sem qualquer condição, amontoados, jogados para ali sem qualquer rede social, sem quem lhes pudesse valer numa necessidade.

Este ano faz parte da competição de filmes documentário do Luxembourg City Film Festival o trabalho «Eldorado». Esta sinfonia a seis mãos foi realizada pelo luso-descendente Rui Abreu em parceria com os seus colegas luxemburgueses Thierry Besseling e Loïc Tanson. Também aqui desbravaram novos terrenos.

E desbravaram terrenos por duas razões. Primeiro, nunca um filme sobre a imigração havia sido feito no Luxemburgo. Em segundo lugar, e mais importante, este documentário aborda o preconceito do Português no Luxemburgo de uma forma muito interessante.

O trabalho de realização deste filme foca-se na vida de quatro portugueses ou luso-descendentes no Luxemburgo. Mostra o combate diário que travam face a falta da rede social, face os patrões que hoje chamam e amanhã não, face ao “feitor” que não olvida o que fizemos ontem. “Tenho mais estudos que ele, falo mais línguas que ele… porque é que eu tenho que andar aqui a trabalhar e ele só fica para ali a olhar” – diz Carlos a páginas tantas.

O grande sonho luxemburguês de fazer a casa na terra, ter um carro e ir de férias no verão é o Eldorado de todos eles. É o Eldorado de todos aqueles que através deles são representados. Tal qual Pizarro eles desbravam selvas, escalam montanha, combatem bestas selvagens para poderem no fim do dia, movidos pelo sonho de um mundo que (já) não existe e que esperam alcançar um dia.

Os seus Andes são as suaves colinas das Ardenas Luxemburguesas mas as suas selvas são-nos bem mais familiares. São os “batimentos” que erguem e que depois limpam. “Batimentos” que, como eles, ficam ali, Levantados do Chão. Sendo que ao contrário do Sol, o chão quando nasce não é para todos.

Desconhecem talvez a passagem do Evangelho segundo São Lucas com que Vinicius de Morais abre o seu Operário em Construção:

«E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo: – Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu.»

«E o operário disse: Não! – Loucura!, gritou o patrão! Não vês o que te dou eu? – Mentira!, disse o operário, Não podes dar-me o que é meu.»

Conhecessem eles estes versos e não precisariam o Rui, o Thierry e o Loïc de colocar rostos naqueles que, como formigas, se vêm a contruir as cidades para os outros. Se como eles olharmos às voltas talvez vejamos os rostos que se amiúde escondem aqui e ali…

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