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Quarto poder?

A jornalista Anna Politkovskaia foi a 21ª jornalista assassinada na Rússia, segundo Repórteres Sem Fronteiras (RSF), desde a eleição de Putin em 2000 (e não parou por aí). Foi durante anos ameaçada, chegou a ser envenenada, sobreviveu. Mas não naquele dia 7 de outubro de 2006, 5 balas foram mais eficazes. Deixou dois filhos.

Estamos em plena campanha de descredibilização do jornalismo. Tudo se vale. Tudo é jornalismo. Nada é jornalismo. No último relatório RSF sobre a liberdade de imprensa, Portugal aparece em 7° lugar, Alemanha 16°, França 26°, EUA 42°, Ucrânia 106°, Rússia 155°, China 175°, Coreia do Norte 180°. Mas que importa isso? Tudo se equivale.

“Os factos não são realmente factos”, “cada um tem sua própria maneira de interpretá-los como sendo ou não a verdade”, “não existe mais essa coisa chamada factos”, disse Scottie Nell Hughes, jornalista comentadora política na CNN, apoiante de Donald Trump, que foi depois parar à Russia Today America, para justificar um tweet de DT sobre a “eleição roubada”.

Se já não há factos, se não há verdade, não precisamos de jornalistas. Se já não há factos, se já não há verdade: adeus ciência, adeus mundo comum, adeus diálogo democrático, adeus democracia. O jornalismo era suposto ser o quarto poder, um contrapoder independente essencial em democracia. Há corporativismo no jornalismo, como há noutras profissões, neste momento uns preferem defender o direito dos jornalistas a fazerem parte de partidos políticos, outros como os do Le Monde preferem, hoje, dar espaço aos jornalistas que são perseguidos pelo poder. Prioridades diferentes. Eu não julgo. Cada um faz o que quer. Tudo se equivale.

Como diz Edgar Morin, no seu mais recente livro: “(…) o conhecimento é a navegação num oceano de incertezas, onde nos vamos reabastecendo em ilhas ou arquipélagos de certezas.”

Ilha de certeza: a Anna Politkovskaia foi assassinada por causa da sua coragem, por ter feito o seu trabalho de quarto poder.

Traduzo aqui uma curta passagem do excerto do seu livro “A Rússia de Putin”, publicado dois anos antes do seu assassinato, reproduzido no Le Monde:

“Putin mostrou várias vezes em público que ele não compreende o princípio do debate. Sobretudo do debate político. Para Putin, um subordinado não deve debater com o seu superior. Um subordinado que o ouse fazer é um inimigo. (…) É o que explica a sua recusa dos debates pre-eleição, não é o seu elemento, ele não é disso capaz, ele não sabe ter um diálogo. (…)

Porque é que eu implico com o Putin? Porque os anos passam. Este verão, fará cinco anos que a segunda guerra chechena começou para que Putin fosse presidente pela primeira vez. E não conseguimos ver o fim disto. (…) NENHUM dos assassinatos de crianças que ocorreram durante os bombardeios e expurgações desde 1999 foram resolvidos, os assassinos não tomaram o seu lugar no banco dos réus. Putin nunca exigiu uma investigação, embora se diga que ele adora crianças (…) Porque é que eu implico com o Putin? Por tudo isto. Pela sua natureza criminosa. Pelo seu cinismo. Pelo seu racismo. Pela sua guerra eterna. Pela mentira. Pelo gás derramado no Teatro Dubrovka [em outubro de 2002, a tomada de reféns em Moscou por um comando islâmico checheno terminou com o uso de um gás mortal pelas forças russas] que matou tantas pessoas [130 pessoas]. Por todas as pessoas inocentes mortas durante o seu primeiro mandato. (…)

Depois de ter recebido acidentalmente um enorme poder, Putin dele dispôs com consequências catastróficas para a Rússia. Eu não gosto dele porque ele não gosta dos seres humanos. Ele não nos apoia. Ele despreza-nos. Ele vê-nos apenas como um meio, e nada mais. O meio para atingir objetivos de poder pessoal. É por isso que ele pode fazer connosco o que quiser, jogar como quiser. Exterminar-nos segundo o seu capricho. Não somos nada. E ele, embora tenha acidentalmente subido tão alto, agora é o nosso czar e o nosso deus; devemos adorá-lo e temê-lo.

Na Rússia, já houve líderes com uma visão do mundo semelhantes. E isso levou a situações trágicas. A banhos de sangue. A guerras civis. Eu não quero nada disso.”

Luísa Semedo

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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