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Quando também ouvires falar mal dos ucranianos, fica atento

© Lusa

“The job of the opressor is to make you think that the opressor and the opressed have the same history.”

Kwame Ture

É fascinante ver como funciona tão bem a estratégia, já utilizada em outras lutas entre agredidos e agressores, como por exemplo a dos “All Lives Matter”. Talvez por causa da nossa educação ou cérebro, não sei, que nos incita a tentar encontrar equilíbrio, a fugir da “radicalidade”, esta estratégia funcione tão bem. Porque é o que se deve de facto fazer em muitas situações: ser moderado. E então, mesmo diante de uma realidade que é radical, que entra quase na ordem do inconcebível, algo de chocante e traumatizante (se já nos dá pesadelos a nós, nem imagino como será para os ucranianos que estão perto ou longe), mal aparecem elementos que incitem a deslocar-nos para uma espécie de posição de moderação, de equilíbrio, estes elementos se tornem especialmente apelativos, nem que seja também para nos extrair, por momentos, de um estado de desolação e impotência.

Muitas discussões atuais não poderão encontrar qualquer tipo de consenso porque nos levam para o território ilusório e confortável do “tudo se vale”, “nem um, nem outro”, “são os dois maus”, e quase nos fazem esquecer a realidade. E a realidade é absolutamente assimétrica: não são as tropas ucranianas que estão em território russo, os milhões de refugiados não são do lado russo, as bombas não caem no lado russo, não são as mulheres, homens e crianças que são violadas do lado russo, os crimes de guerra aqui documentados pela Amnistia Internacional* foram feitos em território ucraniano contra civis ucranianos por militares russos. A lista é longa.

Significa que há um lado absolutamente diabólico e outro absolutamente angelical? Não. Mas não é isso que está em causa. E levar a conversa somente para aí é mais uma técnica de distração. O agredido não precisa de ser perfeito para ser o agredido. O agredido não precisa sequer de não ter nenhuma responsabilidade para ser o agredido. A desproporção é abismal aqui entre o agressor e o agredido e quem não o vê ou não quer ver, chegados a este ponto da situação, depois de tantas semanas, já está numa outra dimensão com a qual é difícil (talvez impossível) de comunicar. O que não podemos deixar que nos aconteça é que a tentação da moderação confortável nos faça fechar os olhos, olhar para o lado, olhar para estas caras e pensar de coração frio: “bom, se calhar eram nazis, paciência”, “estão bem uns para os outros”… A dessensibilização é uma via ingovernável, que não se pense que para ou se circunscreve a esta questão.

Quando também ouvires falar mal dos ucranianos, fica atento…

Luísa Semedo

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