
Recordando Pedrosa Júnior, Ferreira Leite, Rocha Paris e Salvador Ribeiro
No início de Abril do ano de 2014, fui operado. Segundo o médico, a intervenção cirúrgica correu o melhor possível. Veio-mo dizer ao quarto do hospital, onde mal podia mexer-me de dores.
Para aliviar o incómodo, injectaram-me analgésicos.
Dias após a cirurgia, comecei a esvair-me. Uma manhã, desmaiei, tombando, desamparado, no chão.
Preocupado, liguei para o hospital. Declararam-me que o cirurgião não estava, e não me forneceriam – por não haver autorização, – o número de telefone, nem clínicas onde o pudesse encontrar.
Aflito, vendo os familiares em alvoroço, telefonei ao médico assistente. Escusou-se, aconselhando-me a recolher à “Urgência”
Ao recordar, agora, o tumultuado período pós-operatório, lembrei-me dos médicos do meu tempo de menino e moço.
Na maioria eram verdadeiros sacerdotes da medicina. Viviam e preocupavam-se com o bem-estar do doente, fosse a hora que fosse. Para eles a medicina não era apenas uma profissão…
Assim agia o Dr. Pedrosa Júnior, médico gaiense, que residia na então Avenida Marechal Carmona. Nunca desligava, à noite, o telefone, porque – assim dizia: – a consciência não lho permitia.
Muitas vezes, altas horas da madrugada, levantava-se, para visitar doentes, que requeriam sua presença, urgente.
Por vezes nem cobrava. Os honorários variavam consoante as possibilidades económicas do doente… e se houvesse problemas financeiros, que tivesse conhecimento, não pagava.
Foi director clínico do Hospital da Misericórdia de Gaia.
E quem não se recorda, com ternura, do pediatra António Ferreira Leite?
Nunca recusava – mesmo quando se encontrava extenuado por um dia de intenso trabalho, – visitar, pela noite dentro, doentes; e sempre levava um sorriso nos lábios e palavras reconfortantes.
Por vezes não cobrava a consulta. Que o digam os humildes pescadores de Afurada e numerosas famílias ciganas.
Interpelado por amigos e familiares, porque não retirava o auscultador do descanso, durante a noite, para poder repousar calmamente, prontamente retorquia com pontinha de censura: “ A obrigação do médico é estar sempre disponível a prestar assistência a quem necessita…”
E todas as noites o telefone tinia… e em muitas, tocava mais que uma vez…
Já que venho a recordar médicos de outrora, que viveram em Vila Nova de Gaia, seria imperdoável não mencionar o Dr. Rocha Paris.
Erguia-se muito cedo, por vezes antes do nascer do Sol, para assistir doentes sem recursos, que moravam na escarpa da Serra do Pilar ou debaixo de barcas.
Atravessava caminhos manhosos, despovoados e até perigosos, para visitar enfermos, que se abrigavam em toscas barracas de madeira lurada, e de velha folheta ferrugenta, que mal os defendia da chuva e ainda menos das nortadas. Deixava, muitas vezes, o dinheiro necessário para comprarem os medicamentos, quando verificava que não havia meios de aviar a receita.
Foi pioneiro, em Portugal, da Medicina no Trabalho.
Seria injusto, também, não mencionar, neste meu recordar, o Dr. Salvador Ribeiro.
Quando realizava os “domicílios” e se inteirava que não havia recursos para adquirir medicamentos, deixava, sob a receita, o dinheiro necessário.
Só mais tarde é que a família teve conhecimento desse bonito gesto altruísta.
Eram assim muitos médicos de outrora. Viviam para a medicina e para os doentes. Chegavam a interessar-se pela situação económica dos familiares dos enfermos.
Assim acontecia com o Dr. Pedrosa, que chegou a ser Presidente de Câmara Municipal de Gaia.
Condoía-se com as carências dos doentes e dos seus problemas, não com palavras, como é uso na nossa sociedade hipócrita, mas com atitudes e acções, como bom samaritano, que era.
Eram assim, muitos médicos do meu tempo de criança – não todos! – dedicados sacerdotes da medicina.
