
A terra está húmida
como no princípio do mundo
o vento sopra levemente sobre a planície
a montanha soberana do horizonte
o céu coberto com um véu translúcido
e a claridade opaca
da tempestade que já passou
A chuva cai agora silenciosamente
sobre a cidade dormente
como se quisesse repetir
o choro da minha alma
e espalhar sem glória
as minhas lágrimas
por sobre a terra árida
num vão esforço de fertilidade
Os rios correm à minha frente
e turvam-se constantemente
relatos de dor da minha instabilidade
a manhã ausenta-se sob o jugo impassível
das sombras que se esbatem
a água fria abate-se sobre mim
e enche-me os olhos e as goelas
enquanto isso, os telhados tristes fitam o céu
que se impõe a cada gota
com um gume gelado e inexorável.
Primeira manhã.
JLC1996 (do Livro “Poesias de Daniela d’Ávila”)
