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Postal ilustrado em tons fogo

© lusa

Enquanto o País se pinta de cinza, com o Interior e vidas a serem engolidas pelo fogo, Luís Montenegro manteve-se no Algarve, cumprindo a romaria da Festa do Pontal. Nada de cancelar, nada de ajustar, não se lembrou que declarou luto nacional pela morte do Papa, e que condicionou as comemorações do 25 de Abril. Nada de reconhecer que há momentos em que a liderança exige presença no terreno. O calendário da festa falou mais alto do que o grito das chamas. Lembro que o ano passado se passeou num pequeno barco pelo rio Douro, a mostrar-se. Agora diz que acompanha tudo, mas de forma discreta.

O discurso, com a duração litúrgica de mais de quarenta minutos, foi uma ladainha de generalidades. Um alinhamento miserável no alcance, onde se tentou vender a imagem, paradoxalmente, de um país cor-de-rosa que mais ninguém vê, além da sua própria convicção e na imaginação dos seus sequazes. O que era grande, passou a ser pequeno. O que era pequeno, como a promessa de um bilhete único ou de uma carteira digital, foi erguido à categoria de conquista histórica. Pelo meio, o anúncio do regresso da Fórmula 1 ao Algarve em 2027, como se o ronco dos motores pudesse abafar o crepitar das chamas.

Não faltou o velho tique de virar armas contra jornalistas e comentadores, até mesmo contra os Juízes do Constitucional, como se fossem eles os responsáveis pelo calor e pelo vento que alimentam os incêndios. É a política da inversão: culpar quem relata, para não enfrentar o que acontece.

Enquanto isso, em Lisboa, a Ministra da Administração Interna surgia irada numa conferência de imprensa. Muito som, pouco conteúdo. Nada de estrutural, nada de globalmente combativo, apenas a decisão de dilatar o prazo do Estado de Alerta, como se a mudança de cor no semáforo resolvesse o fogo no terreno. Só hoje, já depois de dias de destruição, o Governo decidiu activar o Mecanismo Europeu de Protecção Civil, pedindo ajuda externa para enfrentar uma tragédia evidente.

Enquanto o país arde, o Primeiro-Ministro gastou tempo a ilustrar um postal de propaganda, onde tudo está bem e apenas os mal-intencionados insistem em dizer o contrário. Um postal que poderia servir para promover férias no Algarve, não para liderar um País em crise.

No Pontal, não houve um plano, não houve uma visão, não houve sequer um reconhecimento proporcional da tragédia. Houve, sim, a coreografia habitual: um palco, um discurso, palmas e bandeiras. É a imagem de um País que vive entre a catástrofe e a negação, com a diferença de que, desta vez, a negação foi transmitida em directo.

O pior de tudo não é o fogo que consome o território. É a convicção de quem governa de que, se ignorar o incêndio, ele deixará de existir. Talvez no postal de Montenegro o País esteja intacto e a arder seja apenas a imaginação dos críticos. Mas no País real, as cinzas não mentém.

Neste imenso cenário, a extrema-direita radical a quem Montenegro deu o braço, mantém-se silenciosa, conivente. Porque os grandes assuntos, o que verdadeiramente interessa aos portugueses, e que não seja desestabilizar, não interessa.

Mário Adão Magalhães
(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico).

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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