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Portugueses sobrevivem a naufrágio “por milagre”

Um dos tripulantes portugueses do pesqueiro anglo-sul-africano ‘Geo Searcher’, que afundou no atlântico sul, disse à Lusa que a tripulação portuguesa sobreviveu por “milagre” depois de quase meia hora dentro de água até ao resgate.

“Só sobrevivemos porque os botes estavam na água, se não estivessem na água ninguém sobrevivia, ninguém mesmo”, declarou em entrevista à Lusa o técnico naval português, Daniel Silva, que se encontra agora a cumprir um período de quarentena da covid-19 na Cidade do Cabo.

O naufrágio do navio ‘Geo Searcher’, com 62 tripulantes a bordo, ocorreu na tarde de quinta-feira, 15 de outubro, a 16 quilómetros da ilha inglesa de Gough, uma ilha vulcânica do arquipélago de Tristão da Cunha, no Atlântico Sul, onde o navio pescava lagosta quando “rasgou o casco ao embater numa rocha”, referiu.

De acordo com Daniel Silva, que era o eletricista do navio pesqueiro desde 2016, os que se meteram na primeira lancha para sair do navio que se afundava, “foram à água”, incluindo os cinco portugueses, porque a lancha se virou devido a “uma manobra mal feita”.

“Estive cerca de 25 minutos na água e os outros portugueses estiveram todos na água”, frisou.

“Tivemos a sorte dos botes e tivemos que andar 16 quilómetros até ao ponto onde se encontra a estação meteorológica da ilha de Gough, e os homens lá com pouca experiência ainda conseguiram içar a todos lá para cima com uma grua, que não é para transportar pessoas”, afirmou.

Daniel Silva explicou que “o pessoal foi para as balsas salvavidas e os botes depois chegaram-se às balsas e começaram a fazer o reboque das balsas para a posição da grua para tentarmos subir lá para cima para a estação meteorológica”.

A África do Sul mantém desde a década de 1950 uma estação meteorológica na ilha inglesa de Gough, que o técnico português descreveu como sendo “uma zona muito acidentada” e com águas “muito revoltas”, que dificultam a aproximação.

“Mas lá conseguimos ser içados lá para cima e fomos bem recebidos e ficámos à espera do Agulhas”, salientou.

O navio, registado em Belize e com licença de pesca inglesa, andava na pesca da lagosta naquele arquipélago, a cerca de 2.500 quilómetros do Cabo da Boa Esperança.

“O tempo, milagrosamente, estava bom, não estava sol, mas estava um mar calmo, que é o mais importante, porque se não estivesse, não tínhamos hipótese também de sobreviver”, salientou.

Devido às medidas excecionais de confinamento da covid-19 na África do Sul, o técnico português, de 48 anos, oriundo da Gafanha da Nazaré, disse ter embarcado na cidade namibiana de Walvis Bay, a 2 de setembro juntamente com mais quatro engenheiros portugueses, também de Aveiro e de Vila do Conde, que eram responsáveis pelo funcionamento da casa de máquinas do Geo Searcher, agora afundado.

“Aquela pesca é muito complicada pela simples razão de que estamos sozinhos, não temos socorro, não temos hipóteses, nós estamos por conta própria”, frisou à Lusa Daniel Silva, para quem o navio de resgate sul-africano SA Agulhas II, que os foi buscar à ilha de Gough, “fez um bom trabalho, mas ninguém nos valeu senão nós próprios”.

À chegada à Cidade do Cabo, no final do dia desta segunda-feira, os técnicos navais portugueses foram assistidos pelo Cônsul-Geral de Portugal no Cabo, José Carlos Arsénio, com documentos de viagem provisórios, disse à Lusa fonte das comunidades.

“Estou ainda com a mesma roupa com que deveria entrar ao serviço no dia 15 [de outubro, data do naufrágio] (..) por acaso tenho os cartões de plástico, mas ainda não posso fazer uso deles porque estou preso”, afirmou Daniel Silva, salientando que o colega José Santiago, o chefe de máquinas, “esse não tem mesmo nada, nem cartões e documentos”, frisou.

“As nossas autoridades deveriam ter um meio fácil para nós comunicarmos onde estamos”, referiu o técnico naval português, frisando que esteve recentemente “três meses fechado num navio sem condições nenhumas” na Cidade do Cabo, “à espera de arranjar voo para regressar a Portugal”.

Daniel Silva avançou ainda à Lusa que o navio ‘Geo Searcher’, pertencente à anglo-sul-africana ‘Ovenstone’, detinha uma quota anual de 300 toneladas de pesca de lagosta, para a qual realizava entre duas a três viagens por ano. A empresa conta ainda com uma fábrica de processamento de lagosta na ilha de Tristão da Cunha.

O técnico naval português contou também ter começado a trabalhar ainda jovem em oficinas de reparação naval em Portugal, tendo sido, aos 17 anos, o eletricista mais novo da frota bacalhoeira portuguesa.

Há três anos assistiu na transformação do Geo Searcher, embarcação norueguesa de pesquisa marítima, que foi adaptada em 2017, em Gdansk, Polónia, para a pesca da lagosta, agora afundada.

Este navio transportava também regularmente bens e passageiros entre Tristão da Cunha e a África do Sul, o território continental mais próximo.