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Portugueses repatriados atacam Ministério dos Negócios Estrangeiros

O biólogo madeirense Paulo Oliveira foi repatriado da Guiné-Bissau, num voo da TAP, em 26 de março, após nove dias de espera, e chegou à região autónoma com muitas queixas e alertas sobre a atuação das autoridades portuguesas.

“O que estou a querer denunciar é que, de facto, o Ministério dos Negócios Estrangeiros esteve péssimo. Uma pessoa sente-se totalmente abandonada”, disse à agência Lusa, ao telefone, a partir da Quinta do Lorde, complexo turístico na freguesia do Caniçal, para onde são encaminhados passageiros que chegam à Madeira, a fim de cumprirem a quarentena obrigatória imposta pelo Governo Regional.

A medida foi adotada no âmbito do plano de contenção da pandemia provocada pelo novo coronavírus e entrou em vigor às 00h00 de 22 de março.

Paulo Oliveira estava de férias na Guiné-Bissau, com a companheira, desde o início de março, numa altura em que não fora ainda emitida qualquer recomendação das autoridades portuguesas para evitar viagens a África devido à pandemia da covid-19.

“Estávamos nas Bijagós, ilhas praticamente inacessíveis, quando os aeroportos [dos países] à volta começam todos a fechar”, contou, explicando em 17 de março decidiram regressar a Bissau, mas não chegaram a tempo do último voo.

Recorreram à embaixada de Portugal, onde foram recebidos “nem bem, nem mal” e onde lhes foi pedido para “ter calma”.

O biólogo vincou que estava seguro de que “mais cedo ou mais tarde alguma coisa ia acontecer”, mas não poupa críticas ao desempenho das autoridades portuguesas.

“Ligámos para a Linha Covid-19, criada pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros. Ninguém atendia. Ligámos para a emergência consular, ninguém atendia. Depois, quando atenderam, foram extremamente malcriadas e rudes e mandaram-nos outra vez para a Linha Covid-19. Não nos atendiam. Mandamos e-mail e só recebemos a resposta vários dias depois, uma resposta tipo automática”, relatou.

Durante este período, segundo disse, a embaixada portuguesa em Bissau fechou portas e deixou de atender os telefones.

“O processo começou a evoluir de forma positiva quando o ministro [dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva] anunciou que ia começar a fazer o repatriamento dos portugueses”, explicou Paulo Oliveira, acrescentando: “Mas foi uma operação muito mal montada, muita gente a querer sair, incapacidade logística de apoiar as pessoas, incerteza até ao último momento”.

O biólogo madeirense vincou o “rombo financeiro” resultante do período de espera, pois foram “bastantes mais dias de hotel”, alertando para a eventualidade de haver outros portugueses em dificuldades por esse motivo noutros pontos do mundo.

O voo de repatriamento, operado pela TAP, aterrou na madrugada de 26 de março, em Lisboa e, durante a manhã, viajou para a Madeira, também num avião da companhia portuguesa.

“Era um voo de repatriamento [Bissau-Lisboa], que acabou por ser um voo comercial”, disse Paulo Oliveira.

O biólogo frisou: “Vinham bastantes portugueses a bordo. Turistas, penso que no máximo seriam uns 10. O resto eram pessoas de ONG [organizações não-governamentais], pessoas residentes que quiseram sair, estrangeiros, muitos guineenses. Acabou por ser um voo comercial”.

Paulo Oliveira considerou como “medida fantástica” a quarentena decretada pelo Governo Regional da Madeira, com controlo à chegada ao aeroporto, vincando que na capital esse controlo é menos rigoroso.

“Aqui somos identificados pela polícia, somos encaminhados para um autocarro que nos traz para aqui [Quinta do Lorde], onde somos novamente identificados e distribuídos pelos quartos”, explicou, indicando que “o processo é um pouco lento, mas feito com muita dignidade”.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros (MNE) esclareceu, em resposta escrita enviada à Lusa, que em 28 de fevereiro foi publicado o um alerta nos “Conselhos aos Viajantes” para a Guiné-Bissau, devido à instabilidade política, em que desaconselhava as viagens não essenciais ao país.

“Da situação descrita, é possível concluir que o cidadão nacional em causa decidiu ir de férias para as ilhas Bijagós, na Guiné-Bissau, no início de março, desrespeitando em absoluto as recomendações do Governo português”, referiu a nota.

O MNE sublinhou, também, que em 11 de março a Organização Mundial de Saúde declarou a covid-19 como pandemia.

“O cidadão nacional só terá finalmente decidido suspender as suas férias no dia 17 de março, quando as autoridades guineenses decretaram o encerramento do espaço aéreo”, indicou a nota, vincando que “uma operação de repatriamento com o espaço aéreo do país de destino encerrado é uma operação demorada”.

“Não obstante, o Governo português conseguiu obter autorizações excecionais para que a TAP pudesse operar e repatriar os cidadãos portugueses que se encontravam no país, como terá sucedido com o cidadão nacional em causa”, acrescentou a nota.