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Portuguese at Ease: Uma “janela para Portugal” que liga crianças da diáspora à língua de herança

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Criada oficialmente em fevereiro de 2021, a Portuguese at Ease nasceu da experiência pessoal e académica de Teresa Maltez, professora com mestrado em Serviço Social e especializada em crianças e jovens bilingues. A viver fora de Portugal, Teresa transformou os desafios da emigração num projeto educativo que hoje liga dezenas de crianças lusodescendentes à língua portuguesa, através do ensino online.

Teresa define-se como uma pessoa profundamente humana e apaixonada pela profissão: “Dou aulas com o coração”. A sua formação inicial foi em Artes Plásticas, mas, em 2008, começou a dar aulas de idiomas numa escola secundária em Beja. Desde então, dedicou-se ao ensino, sobretudo junto de crianças e jovens, nas áreas da cultura, idiomas, diversidade, integração e identidade cultural: “Por isso, as crianças e jovens bilingues, mas que vivem longe das suas raízes, foram o foco da minha investigação em 2015, quando terminei o mestrado”. O BOM DIA falou com a fundadora do projeto e conta-lhe agora todos os detalhes.

“O meu mestrado em Serviço Social foi resultado de uma bolsa de estudos chamada Erasmus Mundus, que me permitiu viver em vários países da Europa, e consequentemente, me permitiu viver na pele, ao mesmo tempo que estudava academicamente, os desafios da emigração”, explica. A experiência marcou-lhe o percurso: “Ser emigrante e as questões de identidade passaram a ser o foco dos meus estudos e das minhas leituras pessoais”.

A tese de mestrado foi desenvolvida numa escola em Copenhaga (Dinamarca) cidade onde vive atualmente. Trata-se da Escola de Língua Materna, onde lecionou a alunos que falavam mais do que uma língua em casa. Foi aí que identificou um problema concreto: muitas crianças portuguesas viviam longe da escola e chegavam cansadas, o que dificultava a ligação ao ensino da língua. “A distância física era um problema. A partir daí comecei a pensar, como posso chegar facilmente a estas crianças que vivem mais longe”, recorda.

Hoje, a Portuguese at Ease conta com 37 alunos, entre os 5 e os 16 anos, as respetivas famílias, uma professora responsável por dois alunos com necessidades muito específicas e ainda a colaboração da mãe de Teresa, que, em conjunto com a filha, cria o projeto pedagógico. “Todos fazemos e cocriamos o projeto juntos”, sublinha.

Identidade, pertença e língua de herança

A formação académica de Teresa Maltez foi determinante na construção do modelo pedagógico. “Só uma formação académica permite diagnosticar necessidades tão subtis como esta”, afirma, referindo-se à importância da identidade cultural no bem-estar e desenvolvimento das crianças. Segundo a professora, muitas dessas necessidades são “muito transparentes na socialização geral”, mas tornam-se visíveis através de um olhar científico.

A questão da identidade está longe de ser simples. “Esta pergunta é de resposta muito polémica porque, com alguma frequência, o sentimento de ‘ser português’ que a criança tem não coincide com o sentimento identitário que os pais têm para si, nem muito menos com o que eles desejavam para a criança”, explica. Ao viverem noutros países, estas crianças desenvolvem naturalmente uma forte identificação com o contexto onde crescem, o que pode gerar tensões. “Então, a questão identitária pode ser um fator positivo na aprendizagem (…) Ou pode ser foco de um conflito interno e desconforto para a criança”.

Aprender português como língua de herança é, por isso, diferente de aprender uma língua estrangeira. “Na prática muda tudo, porque não é o mesmo processo aprender um idioma do zero e estudar um idioma herdado em casa, mesmo que em momentos muito esporádicos”, refere. Enquanto um aluno estrangeiro em Portugal começa pelo vocabulário básico de sobrevivência escolar, os alunos de língua de herança partem das suas rotinas familiares: “Os alunos de língua de herança começam por aprender coisas relacionadas com a sua rotina e que os conectam já com o português”.

Embora o português seja muitas vezes descrito como língua de afeto e de memória, Teresa alerta que as crianças mais novas não vivem essa dimensão de forma consciente: “A pergunta tem um nível de abstração que não é vivido dessa maneira pela criança”. Só mais tarde percebem que essa língua pode ser a única forma de comunicar com parte da família: “Com 6 anos, por exemplo, já são conscientes da importância, porque os primos de Portugal não falam dinamarquês, por exemplo, e aí entendem que para brincar com eles é muito importante”.

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Da Tailândia a Malta: diversidade e individualidade

Desde 2021, a escola já teve alunos a viver em países e territórios tão distintos como Tailândia, Peru, Dubai, Suécia, Malta ou Dinamarca. O maior desafio, contudo, não está tanto no país de residência, mas na diversidade de perfis linguísticos. “O grande desafio da língua de herança, na minha perspectiva, é a quantidade infinita de possibilidades entre a relação idade e nível de língua”, explica.

Cada criança é um caso único. Para responder a essa diversidade, as aulas decorrem em grupos muito pequenos, com um máximo de quatro alunos (ou cinco, quando são mais velhos), garantindo atenção individualizada e respeito pelo contexto sociocultural de cada um.

No final das aulas há quase sempre jogos de palavras. Para Teresa, o lado lúdico é essencial: “Acredito que a aprendizagem só é eficaz quando feita num contexto de calma, alegria e segurança. O processo de brincar é a coisa mais livre que uma criança pode viver, por isso é aí que devemos enquadrar a educação, não ao contrário”.

Laços, socialização e pertença

Ao longo de mais de cinco anos de trabalho com famílias lusodescendentes, a professora destaca não apenas a evolução linguística, mas também o crescimento pessoal dos alunos. “A evolução a nível de vocabulário, compreensão e fluência é óbvia, mas aquilo que mais gosto de acompanhar é a socialização em volta das aulas”. Os laços criados entre colegas portugueses, mesmo vivendo em países diferentes, tornam-se parte fundamental da experiência.

O ensino online defende, abriu horizontes à diáspora portuguesa: “Acho que o ensino online trouxe a oportunidade de trazer a escola a toda a diáspora e isso é de um valor incalculável”. E acrescenta: “É, literalmente, a possibilidade de criar ligações em português, mesmo vivendo em lugares onde não há comunidade portuguesa (…) É uma janela (literalmente) para Portugal, que se pode abrir todas as semanas”.

Para o futuro, Teresa Maltez deseja que o português continue a chegar às crianças com leveza: “Muitos alunos não identificam as nossas horas online como escola, nem me identificam como professora, e o meu sonho é de que assim para muitas crianças, o ensino do português chegue com leveza, alegria e carinho a um largo número de famílias”.

Aos pais emigrantes que ponderam investir na ligação dos filhos à língua portuguesa, deixa uma reflexão sustentada pela investigação que realizou: “Porque na minha tese, ao entrevistar os jovens que não falavam a língua dos pais, ouvi de – absolutamente todos – que sentiam muita tristeza por não poder comunicar com eles e sentiam que uma oportunidade única, a de aprender em criança, já tinha passado, já que aprender em jovem/adulto é mais difícil”.

Mesmo quando a fluência plena não é alcançada na adolescência, o objetivo é outro: associar a língua a memórias positivas. “Assim, mesmo que o português não se desenvolva a nível de fluência até aos 15/16 anos, a nossa escola permite relacionar o idioma com um tempo de brincadeira, com alegria, com jogos, com curiosidades e esse sentimento de ‘à vontade’ (‘at ease’) em volta da aprendizagem”, refere.

Num mundo cada vez mais global, a Portuguese at Ease afirma-se como ponte entre países, gerações e identidades: uma escola onde a língua portuguesa é, acima de tudo, um espaço de encontro.

Texto: Fabiana Bravo

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