Ricardo Fernandes, empresário português de 44 anos que ficou tetraplégico após um acidente de viação há 17 anos, morreu na passada sexta-feira na associação Dignitas, em Zurique, na Suíça. Recorreu à morte medicamente assistida, uma decisão que vinha a anunciar publicamente há vários meses.
De acordo com o Correio da Manhã, Ricardo partilhou na véspera da sua morte uma última mensagem nas redes sociais: uma fotografia sua, de olhos fechados, a ouvir música com auscultadores, acompanhada apenas das palavras “Até já”. A música escolhida, “Liberté (Liberdade)”, simbolizava aquilo que, em entrevistas anteriores, descrevera como o objetivo final da sua decisão: alcançar aquilo que chamava de “liberdade medicamente assistida”.

O empresário deixa a mulher, Ana, de 50 anos, e dois filhos adultos, que o apoiaram ao longo do processo. A escolha da data, véspera do 25 de Abril, não passou despercebida, sendo interpretada como um gesto simbólico associado à liberdade que sempre reivindicou. Nos dias anteriores, partilhou momentos com familiares e amigos, descrevendo-os como um “dia e noite completos de tudo”.
Apesar das limitações físicas severas, não conseguia mexer os dedos e dependia de terceiros para tarefas básicas do dia a dia, Ricardo construiu uma carreira de sucesso após o acidente, criando uma empresa de serviços de limpeza que empregava mais de uma centena de pessoas. Ainda assim, assumia viver com sofrimento constante. Numa entrevista à revista Sábado, citada pelo Correio da Manhã, explicou a sua perspetiva com uma metáfora: comparava-se a um pássaro que perdeu as asas e, com isso, a essência da sua liberdade.

Segundo a mesma fonte, lamentava que a eutanásia não estivesse legalizada em Portugal, o que o obrigou a deslocar-se ao estrangeiro, num processo que terá custado entre 15 mil e 20 mil euros. O procedimento foi realizado com recurso a pentobarbital de sódio. Ricardo deixou também instruções para ser cremado e para que as suas cinzas fossem espalhadas no mar.
A revista Flash destaca a reação emocionada de Paulo Battista, amigo próximo de Ricardo, que lhe dedicou uma mensagem de despedida nas redes sociais. “Hoje vais partir… e levas parte de mim”, escreveu, acrescentando que, apesar da dor, respeitava a decisão do amigo. Na mesma mensagem, expressou admiração e carinho, terminando com um pedido simbólico para que Ricardo transmitisse uma mensagem à sua filha.
Segundo a mesma fonte, Ricardo Fernandes tinha adiado a decisão durante anos por causa dos filhos, aguardando que estes atingissem a idade adulta e garantindo que ficariam financeiramente estáveis. A escolha de avançar agora, explicou em vida, resultou do sofrimento acumulado e da convicção de que, pela primeira vez, precisava de pensar em si próprio.