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Portugalidades 1.2. A filiação latina: de Diana a Ulisses

Se a luta contra Roma nos deu material para vocação independentista, guerreira e guerrilheira, essa imponente máquina de imposição de força criou também muito fascínio, especialmente no Renascimento, alinhando Portugal com a onda europeia de “regresso” aos clássicos, às Belas Letras e às Belas Artes: apesar de imposta e destruidora do que é específico, “étnico”, a romanização coloca-nos dentro dos limites da cultura clássica, retirando-nos qualquer possibilidade de sermos entendidos como bárbaros.

No caso português, essa vontade de encontrar nos clássicos uma maternidade cultural era aparentemente incontestável com base na própria língua. Só há muito pouco tempo, nas últimas dezenas de anos, especialmente depois dos trabalhos de Adalberto Alves, se reconheceu o peso efetivo do árabe na construção do português. Se para José Pedro Machado, teríamos 954 termos árabes na língua portuguesa, na volumosa obra de Adalberto Alves, Dicionário de Arabismos da Língua Portuguesa, de 2013, são apontados cerca de 18.000, reduzindo -em pouco, mas reduzindo- o peso esmagador do latim com uma outra fonte essencial que é a língua do Alcorão. A proclamada natureza de língua latina que o português apresenta era, e é, um atestado civilizacional que nos coloca dentro do pacote das culturas legitimamente herdeiras do que se definira como modelo, o “Clássico”. Aliás, muito da reforma da língua que tem lugar nos séculos XVIII e XIX, cujo expoente máximo é o trabalho de Madureira Feijó, Orthographia, ou Arte de Escrever, e pronunciar com acerto a Lingua Portugueza (1734), e adotada depois como princípio pela recém-criada Academia das Ciências, resulta de um desejo de adequar o léxico a étimos latinos e gregos, adulterando, mesmo, a oralidade, aproximando a língua a uma suposta origem clássica, tornando-a mais “pura” e menos bárbara.

Os nossos autores renascentistas, como todos os autores dessa época nos restantes reinos europeus, buscaram a formação e a inspiração clássica. A recolha de epígrafes e de estatuária que comprovasse a ligação ao mundo latino foi tarefa que não poucas vezes implicou o forjar de provas e a construção de narrativas muito além do que as fontes permitiam.

Foi o que sucedeu com a nobilitação da antiga Liberalitas Iulia Ebora, cidade alentejana catapultada nos séculos XV e XVI para um lugar central na cultura nacional, quer com uma frequente presença da corte, quer com a instalação do Colégio, depois Universidade, do Espírito Santo, em 1559, entregue aos Jesuítas. André de Resende, na sua História da Antiguidade da Cidade de Évora (1541 – 1547), vai cantar a sua cidade na época em que se percebe que o edifício até então usado como açougue era, afinal, de construção romana. Construído no século I d. C., o edifício que ainda hoje encontramos em Évora, agora já liberto de todas as construções que lhe foram adossadas ao longo do tempo, seria o templo central do fórum da cidade, dedicado possivelmente à figura de Augusto.

Contudo, a capacidade de efabulação, alavancada pelo desejo de nobilitar as origens da cidade, levavam o Pe. Manuel Fialho, na sua Évora Ilustrada (1690), a afirmar que o templo fora construído Quinto Sertório e dedicado à deusa romana Diana, deusa da caça, lançando assim um mito que durou séculos, muito difícil de apagar da manualística escolar, dos roteiros turísticos e, mesmo, das grandes e monumentais Histórias de Portugal.

Nesta força imensa de querer remeter as origens para Roma, várias cidades formularam os seus gentílicos com nomes derivados da onomástica latina. Quem é de Santarém é escalabitano, tal como quem é de Idanha-a-Velha é egitaniense ou, mais estranho ainda, quem é de Castelo Branco vê a sua designação ser “traduzida” com um sabor a latim, e são albicastrenses. E muitos outros exemplos poderiam ser dados. Mas o caso mais enigmático, pelo que de inverosímil tem, é o de Lisboa com o mito de origem do nome em Ulisses.

A matéria primeira para este mito encontramo-la em Estrabão. De facto, o geógrafo grego afirma na sua Geografia que na Ibéria se encontra uma cidade com o nome de «Odisseus», Ulisses. Possivelmente, o herói grego teria vindo à Ibéria quando foi aos Campos Elíseos, apontado para Ocidente, logo, na direção certa.

Para os autores antigos, Felicitas Iulia Olisipo era uma cidade notável, de cidadãos romanos, digna de nota. Ainda Estrabão caracteriza-a assim:

“A partir do Tejo, as cidades dignas de menção, na costa, são Olisipo, conhecida por as éguas serem fecundadas pelo vento favónio, Salácia, designada “cidade imperial”, Miróbriga. Existe o promontório Sacro e outro, Cúneo. Existem as cidades Ossonoba, Balsa, Mírtilis.”

Contudo, o geógrafo, pai da disciplina, em nada refere ser esta a cidade fundada por Ulisses. Mas seria ainda na antiguidade que a lenda ganhava forma, quando o topónimo Olisipo foi entendido como uma derivação do Ulixes. Amílcar Guerra lembra-nos que “deste modo se construiu, já em período romano, a narrativa de uma errância de Ulisses até estas terras extremas, de que ficaria uma marca numa cidade supostamente por si fundada”.

Na Época Moderna, alimentada pelo imaginário das navegações, compreende-se a funcionalidade desta narrativa, a operatividade deste mito que nos colocava, não apenas com um ilustre antepassado, como nos lançava, de imediato, na senda das grandes navegações, como nos indica de Fátima Rambaud a propósito do uso simbólico da semelhança fonética entre o nome latino de Ulisses e o topónimo Olisipo: “Lisbonne est l’espace de la rencontre entre mythe et réalité. Et, en dernière analyse, Ulysse et Lisbon ne sont tributaires l’un de l’autre; car c’est grâce à Lisbonne qu’Ulysse put descendre des limbes mythiques”.

Camões, naturalmente, era uma peça fundamental nesta consolidação mitológica com um grupo largo de referências a Ulisses no Lusíadas: “sábio Grego” (I, 3: 1), o “facundo Ulisses” (II, 45: 1), “O perdido Ítaco” (II, 82: 1), entre muitas outras.

Na própria cultura europeia, externa a Portugal, mas alimentando-a, Rogério Puga mostrou como a literatura britânica, desde o século XVIII, com autores como Alexander Pope, William Morgan Kinsey e Derek Walcott, entre outros, utilizam “esse mito como ponto de partida para novas viagens ficcionais”, tornando-se um topos da cultura europeia.

O correr deste mito foi longo e cimentou-se. Ainda hoje é corrente ver em muita bibliografia esta narrativa repetida, apesar de grandes trabalhos sobre a história de Lisboa terem tido já lugar de destaque no panorama, quer académico, quer editorial, sendo o melhor exemplo o trabalho de 2000 de Dejanirah Couto, Histoire de Lisbonne.

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