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Portugal, a chave para o futuro tecnológico da Europa

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Num mundo onde a tecnologia é poder, Portugal enfrenta uma oportunidade histórica: deixar de ser um aluno exemplar para se tornar um líder estratégico. Mas para isso, precisa de uma visão clara, coragem política e uma ambição que vá além das boas intenções.

A nova fronteira da competitividade global já não se mede em recursos naturais ou mão de obra barata. A batalha joga-se na capacidade de dominar tecnologias disruptivas: inteligência artificial, computação quântica, biotecnologia, energias limpas e a exploração do espaço e dos oceanos. 

Estas inovações estão a redesenhar cadeias de valor, a soberania dos estados e o xadrez geopolítico. A União Europeia já percebeu isso. Iniciativas como o Pacto Verde, o Chips Act e o recente AI Act são a prova de que Bruxelas compreende que a tecnologia é a nova linguagem do poder.

Neste cenário, Portugal tem uma janela de oportunidade única. Não para competir em escala industrial, mas para se afirmar pela inteligência estratégica. É a chance de abandonar a mentalidade de periferia e transformar-se numa plataforma de investigação, inovação ética e colaboração transatlântica.  

Uma Visão de Estado: Escolher para liderar

Muitos países falham não por falta de ideias, mas por ausência de continuidade. Em Portugal, a alternância política tem sido, demasiadas vezes, sinónimo do abandono de agendas tecnológicas promissoras. O nosso governo tem o imperativo de quebrar este ciclo.

A solução não é mais um “Plano Nacional de Inovação”, mas sim uma Estratégia Nacional de Liderança em Tecnologias Disruptivas com um horizonte a 2040, blindada por um consenso político alargado. Liderar não é fazer tudo; é escolher 3 a 5 áreas e apostar nelas de forma sustentada. Portugal já tem os ativos para se destacar em:

  • IA nos Serviços Públicos: Otimizar saúde, justiça e educação com algoritmos transparentes.
  • Energias Marinhas: Transformar o nosso Atlântico num laboratório vivo para a energia das ondas e hidrogénio verde.
  • Tecnologias Oceano-Espaço: Unir dados de satélite e sensores marinhos para liderar a monitorização climática.
  • Healthtech e Longevidade: Criar soluções para um envelhecimento ativo e saudável.
  • Cibersegurança e Identidade Digital: Tornarmo-nos uma referência na proteção de infraestruturas críticas na Europa.

O Estado como impulsionador, não como obstáculo

O setor público deve deixar de ser visto como um entrave para se tornar o principal cliente e parceiro da inovação. Como?

  1. Contratação Pública Inteligente: Em vez de comprar “software”, lançar desafios como: “procuro uma solução para reduzir as emissões da frota municipal em 40%”.
  2. Criar Zonas Livres Tecnológicas (Sandboxes): Designar áreas (como a Madeira, Sines ou o Porto) onde empresas possam testar drones, veículos autónomos ou IA em ambiente real, com supervisão ágil e sem asfixia burocrática.
  3. Regulação Proativa: Antecipar as regras europeias, criando, por exemplo, um quadro nacional para auditar algoritmos públicos. Portugal pode ser o laboratório da AI Act.

Formar líderes, não apenas técnicos

Produzimos excelentes engenheiros, mas a liderança tecnológica exige mais. Precisamos de “tradutores”: profissionais que dominem a tecnologia, a política, a ética e o mercado.

  • Carreiras Científicas Atrativas: Salários de entrada para doutorados competitivos com a Europa e financiamento estável para as equipas.
  • Atrair o Talento da Diáspora: Criar programas de retorno para os nossos cérebros em Silicon Valley ou Singapura.
  • Vistos Tecnológicos Simplificados: Agilizar a entrada de especialistas em áreas críticas como a computação quântica ou a bioengenharia.
  • Ligar Universidade e Indústria: Exigir que projetos de investigação tenham uma componente prática, com coorientação de empresas nacionais de referência.

Das universidades para o mercado: Gerar valor

A Europa gera ciência de excelência, mas falha a convertê-la em valor económico. Portugal pode inverter esta tendência.

Financiar Protótipos: Criar fundos “pré-spin-off” para validar ideias antes de se tornarem empresas.

Simplificar a Propriedade Intelectual: Adotar modelos como o do MIT, onde o inventor retém uma parte significativa dos ganhos, incentivando a comercialização.

Avaliar por Impacto Real: Medir o sucesso das universidades também pelo número de patentes licenciadas e por startups criadas por alunos.

A metaem dez anos, uma em cada cinco deep techs europeias com ADN português deve estar a resolver problemas globais com tecnologia nascida aqui.

Uma plataforma atlântica: O poder de conectar

A nossa geografia é um ativo estratégico. Enquanto outros lutam pelo domínio continental, Portugal pode ser a ponte que liga a Europa à África e à América Latina. Podemos ser o hub para testar tecnologias em diferentes mercados, formar líderes em governação digital e posicionar o porto de Sines como a porta de entrada de dados e hardware para o Sul Global.

Acreditar para concretizar

Nenhuma estratégia sobrevive sem uma narrativa de ambição coletiva. Portugal habituou-se a ser “o bom aluno”, mas raramente o protagonista. É tempo de mudar essa mentalidade.

A nossa mensagem deve ser clara: somos ágeis, não apenas pequenos. Somos visionários, não apenas executantes. Não criamos tudo, mas sabemos implementar com ética, eficiência e impacto.

O futuro tecnológico da Europa não será escrito apenas em Berlim ou Paris. Pode, e deve, ter capítulos decisivos escritos em Lisboa, Coimbra, Aveiro ou Ponta Delgada. A questão já não é “se podemos”, mas sim “quando vamos começar”.

Pedro Marques

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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