
Chove há quantos dias? O Inverno que idealizou sempre branco e romântico destila-se em cheias e aguaceiros, em rajadas e trovoadas, escorre pelas paredes do mundo e pelas sarjetas da minha rua. “Água que Deus amanda”, oiço a minha mãe explicar-me, junto ao velho fogão a lenha, nas noites de tempestade em que eu não conseguia dormir a não ser no seu colo morno, como se a benignidade da benção divina servisse apenas para fertilizar a terra e não para assustar os homens.
Um passeio no Grund ou no Cais da Ribeira, sob o viaduto, a que chamam ponte velha, ou sob a ponte D. Luiz, uma Guinness no Scott’s, atravessando o Douro, ou um Três Velhotes numa cave do Bock, não se deve misturar cerveja com vinho, perco-me, inebrio-me, chega-me uma canção triste como “quem vem e atravessa o rio, junto à serra do Pilar, vê um velho casario, que se estende até … à Pétrusse”.
A luz foge à manhã, que se esvai taciturna, moribunda e inane. Aqui, do promontório deste burgo ou na Foz do Douro… não suporto crepúsculos a meio da tarde. Ou que as sombras comam os dias como os que eu quisera ledos na rue Münster ou na rua das Carmelitas. Ou na praça dos Leões, qual delas?
Quero exorcizar de mim os velhos amores que me assombram, a depressão de Inverno, que sinto chegar por uma escada oculta. Escrevo-lhe finalmente. Assedia-me o travo perfumado, a lembrança da sua língua, dos meus gestos antes tímidos, da linguagem muda das nossas bocas querendo deflagrar todas as estações, dos nossos corpos hesitantes, que finalmente mergulham de olhos bem abertos um no outro, num hotel sem nome, junto a um aeroporto, cais moderno das novas partidas, que nos lembram com insistência que o nosso voo também será breve e que os amantes se deverão apartar. Para mais tarde se juntar. Era o que eu acreditava então.
