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Porque “vai ficar tudo bem”?

A não ser nas notícias relativas à China, todas as outras que de Covid-19 tratam mostram-nos números de vítimas ou de infetados a subir. Sobem mais, ou menos, mas sobem. Contentamo-nos com a curva não exponencial, com a curva menos ascendente, com uma curva a aproximar-se de um planalto, o tão famoso “achatar a curva”.

E, no entanto, este é bem o nosso contentamento. Numa virose que se transforma em pandemia, este é mesmo o caminho: ir percebendo, aguardando, dia após dia, que o número de vítimas esteja a crescer menos…. Depois, sim, se tudo se mantiver, irá diminuir o número de internados, o número de infetados, até desaparecer o risco público.

Esta realidade podia ser, quem sabe, um dia, a base de uma narrativa religiosa, de uma narrativa sobre a forma como, na dor, no sofrimento, conseguimos encontrar pequenas réstias de Luz que nos dão alento e nos guiam através de um caminho tenebroso.

No seu poema “Anthem”, Leonard Cohen fala-nos de Luz:

There is a crack in everything
That’s how the light gets in

É curioso como, realmente, em tudo há uma brecha, um ponto por onde pode entrar a Luz. E ela entra. Temos, quantas vezes, a tentação de seguir culturalmente a angustiante visão antropológica negativa do meio-gnóstico Evangelho de João quando ele diz no final do prólogo (João 1:5):

E a luz resplandece nas trevas,
e as trevas não a compreenderam.

É tão mais realista a visão de Cohen que vê uma possibilidade de a Luz brilhar mesmo onde parece não poder passar. Quantas pandemias, quantos cataclismos e catástrofes a nossa espécie já viveu?

Fisiologicamente, a nossa espécie não está especialmente bem dotada para a sobrevivência. O que nos diferencia é o cérebro e o que ele consegue fazer de pensamento e de emoção, de raciocínio e de emoção. Neste jogo brilhante e aparentemente contraditório entre Razão e Emoção está a nossa capacidade de decidir e de tomar opções como nos demonstrou o brilhante António Damásio no seu O Erro de Descartes. É nisso que somos bons, a resolver.

E por isso está toda uma comunidade científica a trabalhar em medicamentos e potencias vacinas. Por isso está uma parte da indústria a fazer máscaras e ventiladores. Por isso está tanto da nossa criatividade e esforço a resultar em abnegação e dádiva dos médicos, enfermeiros e demais técnicos, em pequenos gestos de apoio entre família, amigos e vizinhos, mas também em música oferecida a quem quiser passar pelos websites e ouvir, ou visitar museus, etc, etc, etc.

É nestes momentos que percebemos porque somos Humanos e porque, sim, “vai ficar tudo bem”!

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